O impacto do divórcio nas finanças das mulheres

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Conhecer seus direitos e ter independência financeira podem ajudar neste momento

“Ninguém casa pensando em se divorciar, mas deveria”. O conselho da advogada Joana Nogueira pode parecer estranho para quem está apaixonado e pensando em se casar, ou ainda para alguém que já esteja em um relacionamento estável e tranquilo. Mas é uma frase que deveria ser levada em consideração, especialmente para mulheres que estão prestes a entrar em um relacionamento estável. Isso porque, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de divórcios em 2022 bateu recorde desde que começou a ser levantado, em 2007: chegou a 420 mil.

Casada há 17 anos, Juliana Marino, de 45 anos, lembra-se que foi no curso de noivos ministrado pela igreja que frequentava que conheceu mais profundamente os regimes de casamento e separação. “Sabia que havia a comunhão total e a parcial de bens. Optamos por nos casar com comunhão parcial de bens, mas, mesmo assim, sei que em uma separação vou sair perdendo. Meu salário é muito menor que do meu marido (chega a 10% do que ele ganha), e toda a responsabilidade para com os filhos acaba recaindo sobre mim. Tenho certeza que os 33% que me serão determinados por um juiz não serão suficientes para arcar com as contas das minhas duas filhas, despesas com a casa (que requer manutenção), escola, inglês, atividades complementares, etc. Por isso, mesmo que esteja infeliz, penso mil vezes antes de tomar qualquer atitude em relação ao meu marido”, conta.

Daniela Rondini, de 44 anos, está separada há 2 anos do ex-marido. Moravam em uma casa em um condomínio de classe média alta, tinha empregada todos os dias para conseguir dar conta da rotina de trabalho e dos 3 filhos, todos menores de idade. Quando se separou, precisou procurar um outro local para morar, para reduzir as despesas e também o trabalho com a casa enorme. “Não queria que as crianças sentissem o impacto financeiro da separação, pois já estavam sofrendo com todas as mudanças, com a ausência do pai e com toda questão emocional que vem junto com o divórcio. Mas não tinha condições de bancar a casa, a escola e todos os outros custos”. Além de se mudar para um apartamento menor, ela acabou trocando as crianças de escola para ajustar as finanças.

Até que a separação fosse oficial, ela também passou por muita humilhação. “Precisava especificar todos os gastos diários, não apenas das crianças, mas cada ida ao supermercado, padaria, tudo era monitorado e tinha que ser justificado. Enquanto isso, eu não tinha acesso a nada da vida dele, apenas às quartas-feiras, quando ele pegava as crianças, eu sabia de algumas coisas, ou a cada 15 dias, aos finais de semana, que eles me contavam onde tinham ido, com quem. Depois de 2 anos o divórcio finalmente foi oficializado, e o desafio agora é equilibrar as finanças para custear a vida dela e dos filhos.

Sem filhos, Elisângela Santos saiu da casa do ex-marido após 10 anos casada apenas com um carro velho, o mesmo que ela tinha quando se casou. A casa em que viviam nunca passou para o nome deles e continuou no nome dos sogros. O marido, durante o casamento, trocou várias vezes de carro, mas o dela acabou ficando para o dia a dia. Quando veio a separação, ela estava desempregada e sem um lar. Precisou arrumar um emprego às pressas para não passar fome. “Foi desesperador. Não ter um plano fez com que sofra até hoje os danos financeiros da separação”, conta.

Mas, como se precaver e não sair perdendo tanto com o divórcio?

Joana ressalta que uma série de medidas podem ser tomadas para que as mulheres estejam mais protegidas em casos de separação ou divórcio. “A primeira delas é tentar ser o mais independente possível. Vejo aqui no escritório que as que mais sofrem são aquelas que se dedicam à família e deixam de trabalhar. Elas se sentem traídas de todas as maneiras e ficam mais vulneráveis emocional e financeiramente”. Para isso, é preciso também que elas tenham ou passem a ter uma educação financeira, com entendimento claro de finanças, rendas, despesas, investimentos, dívidas, etc.

Durante o casamento, é preciso que as mulheres se envolvam ativamente nas finanças familiares, compreendendo ativos, passivos, contas bancárias, investimentos, planos de previdência. Isso garante que tenham uma visão completa da situação financeira do casal.

Ela também orienta as mulheres a terem todos os documentos importantes, como declarações fiscais, extratos bancários, contratos e escrituras, em um local seguro e acessível.

“Acordos pré-nupciais também podem ajudar as mulheres a proteger seus interesses financeiros antes do casamento. Isso pode incluir disposições sobre divisão de bens, pensão alimentícia e outros aspectos financeiros em caso de divórcio. Aqui até plano de saúde pode entrar”, diz.

Em caso de divórcio, buscar orientação jurídica de um advogado especializado em direito de família pode ajudar as mulheres a entender seus direitos e opções legais durante o divórcio. Um advogado pode representá-las nos processos de divórcio e ajudá-las a alcançar um acordo justo.

Antes e durante o divórcio, as mulheres devem desenvolver um plano financeiro detalhado para o futuro. Isso pode incluir a criação de um orçamento realista, o estabelecimento de metas financeiras e a consideração de estratégias de investimento e economia. Seguros de vida, previdências, ou algumas cestas de investimentos podem ajudar neste momento. “Quando minhas clientes me procuram, a primeira orientação que dou é: conheça suas finanças, guardem todos os recibos, mesmo notinhas de cartão de crédito. Isso ajuda a traçar uma pensão mais realista, que não a deixe desamparada”.

A saúde mental também precisa ser cuidada, já que o divórcio pode ser um período emocionalmente desafiador. As mulheres devem priorizar seu bem-estar emocional, buscando apoio de amigos, familiares, grupos de apoio ou profissionais de saúde mental. “A separação é um processo de luto, que pode ser longo e demorado. Ao contrário de uma morte, que precisa ser superada, ela dá uma sensação de fracasso, de morte aos poucos, e pode ser tão dolorosa quanto a morte de um ente querido”, diz Bruna Silva, psicóloga.

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