Supermercado com os filhos: educação ou cilada?

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Não é novidade para ninguém que, em nossa sociedade atual, as mulheres continuam sendo as principais responsáveis por tarefas relacionadas com cuidados com pessoas e/ou com afazeres domésticos. Isso ocorre mesmo com tantos avanços em relação à mulher e mercado de trabalho, assim como com a melhora na divisão das responsabilidades dentro de casa entre o casal. 

Ainda assim, vejam a disparidade: os homens usam semanalmente, em média, 10,5 horas dedicadas aos cuidados de pessoas e/ou afazeres domésticos, enquanto as mulheres, dedicam 18,1 horas nesta mesma função. Ou seja, as mulheres usam cerca de 73% a mais de seu tempo do que os homens nestas funções. Esses dados foram divulgados pelo relatório do IBGE chamado “Estatísticas de Gênero Indicadores sociais das mulheres no Brasil”.

E inseridos nessas horas destinadas ao cuidado com a casa e família, estão os filhos e as compras de mercado para a casa. E é por isso que, muitas vezes, as mulheres acabam indo ao supermercado com seus filhos. 

Fazer as compras de supermercado acompanhado dos filhos pode ser uma excelente ferramenta de educação financeira. 

O ambiente é como um verdadeiro parque de diversões para as crianças, pois envolve muita distração. Mas, ao mesmo tempo, possibilidades de educação. É por isso que o local pode funcionar muito bem para treinar a disciplina e o planejamento, tanto dos pequenos, como dos adultos.

No entanto, quando mal administrada, ao contrário do esperado, essa experiência pode ser o início da “deseducação”. 

Então, qual o caminho correto para colocar os filhos em uma trilha ascendente de sucesso na educação financeira?

Supermercado para as crianças: disciplina ou convite à distração?

Bom, já sabemos que as mulheres ainda são as principais responsáveis pelo cuidado com a casa e filhos. Mas elas também são as principais responsáveis pelas compras da casa, especialmente no varejo. De acordo com a Associação Paulista de Supermercados, APA, a mulher é uma peça chave no comportamento de compra, representando mais de 70% de participação no ponto de venda.

Ou seja, elas são a maioria nos ambientes de supermercado e, na grande maioria das vezes, estão sim acompanhadas de seus filhos. Então vamos ver como esses momentos podem ser melhor aproveitados?

Pense que o supermercado pode funcionar como um parque de diversões para as crianças. Repleto de gôndolas coloridas, intencionalmente, instaladas para que os produtos estejam ao alcance das mãos. 

Para algumas famílias, esse é um ambiente que traz a oportunidade de ensinar sobre educação financeira. Já para outros, não passa de um convite para estimular cenas estressantes de birra e muita choradeira.  

Na verdade, o local pode ocasionar ambas as situações. Quem comandará o ritmo é quem acompanha a criança. 

“Crianças aprendem muito por observação. Não adianta toda uma contextualização de educação e planejamento financeiro se os pais não o fizerem na prática. Nesse caso, são passadas mensagens conflitantes para as crianças”. Quem faz o alerta é o economista, Stephan Sawitzk. 

Para ele, os pais podem e devem levar as crianças ao supermercado a fim de educá-las financeiramente, desde que consigam manter a disciplina e usar o “não” de forma argumentativa. 

Caso contrário, segundo ele, o que poderia ser “educação financeira” pode se transformar em “deseducação”.

Mas será que a experiência educativa pode ser absorvida por crianças de qualquer idade? E quanto ao ambiente de estresse que pode ser criado por uma mãe já cansada de sua jornada dupla de trabalho dentro e fora de casa e uma criança que quer o que não pode ter? 

Finanças: quando começar a educar

Para o economista, é muito importante na fase do desenvolvimento da criança, que o poder de argumentação dos pais seja adaptado à capacidade de compreensão de cada idade.

“A transparência dos pais em relação aos motivos sobre o que pode ou não ser consumido é de suma importância. Quanto mais cedo conseguirmos trazer as crianças para uma discussão sobre o dinheiro, mais entendimento ela terá do assunto, conforme for amadurecendo”, explica Sawitzk.

No entanto, sabemos que dizer não aos desejos de consumo dos filhos pode ser uma tarefa árdua. 

“É necessário explicar para as crianças que, para existir o consumo, deve existir uma contrapartida: o dinheiro. É que a obtenção do dinheiro é algo difícil. Assim, elas estarão mais preparadas para as frustrações futuras”, esclarece.

Colocando o mercado educativo em prática

Porém, é possível seguir uma sequência lógica no trato com as crianças. Para não dar a falsa impressão de que tudo se consegue de maneira fácil, um caminho é explicar o conceito de escolhas no consumo e ensinar o funcionamento da contrapartida.

Mas como traduzir isso de forma que as crianças compreendam? 

“Gosto muito da ideia de inserir o conceito de escolha, assim que as crianças comecem a entender as operações aritméticas simples. Por exemplo: tenho ‘x’ de recursos, e quero comprar ‘y’ produtos. Neste momento, a criança percebe que, talvez, não possa comprar tudo e que vai precisar escolher”.

O economista continua: “Em um segundo momento, é possível trazer o conceito que esse ‘x’ de recurso, pode ser economizado e somado com o próximo ‘x’, o que vai ampliar a capacidade de consumo”. 

E como os pais podem colocar essa metodologia em prática? 

“Sempre gostei da ideia de ‘mesada’ ou ‘semanada’, desde que bem acompanhadas e com devolutivas de feedbacks construtivos”, esclarece Stephan Sawitzk. 

E onde esse conceito pode ser inserido na ida ao supermercado? 

“A melhor maneira de ensinar a criança, é dar autonomia de gerenciamento do seu consumo”, completa.

Cuidado: é cilada!

Mães que decidirem levar as crianças ao supermercado, ou que não têm outra escolha e precisam levar os filhos a tiracolo, devem ficar atentos para não cederem à pressão e à chantagem emocional das crianças. 

Mas, isso não deve acontecer apenas na hora do mercado. O ideal é ficar atento à forma como os desejos das crianças são tratados de modo geral, em outras situações do cotidiano. 

Principalmente, quando um colega ou amigo com mais capacidade financeira tem acesso mais fácil ao consumo.

“Tentar a equiparação, além de passar a ideia errada para as crianças sobre dinheiro, pode gerar desequilíbrio financeiro para os pais. As crianças têm muita capacidade de absorver informação, por esse motivo, as conversas educativas e argumentativas devem ocorrer com muita frequência”, aponta o economista.

Para finalizar, ele reforça a importância de convidar todo o círculo familiar mais próximo para a conversa sobre finanças com as crianças, incluindo os avós.

“O ciclo de educação só se fecha se todos estiverem dispostos a participar e praticar. Além disso, se tratando de crianças, gosto muito da ideia de algum tipo de investimento compulsório, dentro das possibilidades da família, para que ao menos a educação esteja garantida”, ressalta.

Construindo adultos independentes 

Mostrar as limitações do consumo pode ser uma forma de educar. Mas, o “não” deve vir acompanhado de um argumento financeiro, conforme aponta o economista. 

“Sem dúvida, não é um exercício fácil, mas os benefícios a longo prazo podem ser muito bons. Uma criança que cresce com uma boa educação financeira estará menos suscetível a problemas financeiros no futuro. Provavelmente, serão profissionais mais preparados e com uma capacidade muito maior de geração de riqueza”, finaliza.

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