Maria da Carne de Sol

O início de sua trajetória foi em pleno sertão, com uma infância marcada por falta de comida, saneamento básico, energia elétrica, asfalto e assistência social
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Reportagem especial: Maria, Maria: um retrato sociocultural da mulher brasileira
O início da vida de Maria Barbosa foi em pleno sertão, com uma infância marcada por falta de comida, saneamento básico, energia elétrica, asfalto, assistência social, entre outros

Este perfil faz parte da reportagem especial “Maria, Maria: um retrato sociocultural da mulher brasileira”. Para acessar a série completa, clique aqui.

Maria Barbosa, 84 anos, aposentada

Maria Barbosa tem 84 anos, nasceu no município de Cedro que tem cerca de 24 mil habitantes. Não frequentou escola e é considerada analfabeta — sabe apenas escrever seu nome. Mas lá, onde Maria deu o ar da graça, isso não é nada incomum. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD Contínua) de 2018, do IBGE, a região do Nordeste ainda concentra a maior taxa de analfabetismo do país. 

O início de sua trajetória foi em pleno sertão, com uma infância marcada por falta de comida, saneamento básico, energia elétrica, asfalto, assistência social, entre outros. “Minha vida foi muito difícil. Muitas vezes não tinha o que comer e o arroz, alimento que dá sustento, era só uma vez por semana”, conta Maria. 

OLHA SÓ: Maria, Maria: Entenda como vivem as mulheres brasileiras

Outro momento difícil e marcante foi o desaparecimento de sua irmã mais nova. Ao total, a família era de cinco irmãos e Maria era a encarregada de tomar conta de todos. Certo dia, a caçula brincava na rua e, por segundos de descuido, desapareceu. Nunca mais foi vista. O momento foi difícil para Maria e toda a família. 

No início da adolescência, ao completar 13 anos, Maria se mudou para outro bairro e conheceu José, por quem se apaixonou e passou a ter um relacionamento. O casal oficializou a união em 1950, mas o primeiro bebê só veio dez anos depois. Maria teve dez filhos com José. Ela conta que durante as suas gestações não teve assistência médica — os partos eram normais e realizados em casa. 

Maria era quem fazia as roupas das crianças, inclusive as fraldas diárias, de pano, que precisavam ser lavadas todos os dias no açude próximo de sua casa. Aos 84 anos, a aposentada Maria Barbosa conta as reviravoltas de sua história de luta, cor e suor no Nordeste, em meio à escassez e falta de itens de necessidades básicas, como água encanada e luz elétrica.

“Muitas vezes não tinha o que comer e o arroz, alimento que dá sustento, era só uma vez por semana”

Ela acordava todos os dias cinco horas da manhã, preparava o café, fazia mingau para as crianças pequenas, varria a casa e lavava a louça. Em sua residência faltavam alguns itens de primeira necessidade, como água encanada — o que refletia na falta de vaso sanitário, chuveiro, torneira e pia. Ainda cedo, Maria buscava água no poço que ficava um pouco distante de sua casa, que abastecia todos os bairros do município. Para as tarefas domésticas, saciar a sede, cozinhar e tomar banho eram necessários quatro baldes de água — equilibrados um por vez na cabeça de Maria. A atividade acabou por render à aposentada, além do cansaço, problemas na coluna. 

Para preparar o almoço, Maria precisava moer ou pilar alimentos como arroz, milho, sal e café — que eram cozidos em panelas de barro em um fogão à lenha. Nem sempre havia alimento e o cardápio muitas vezes se repetia. Praticamente todos os dias a refeição era o mungunzá branco. Os momentos de alegria eram quando tinha o tradicional baião de dois. À noite, Maria se encarregava de colocar as crianças para dormir e assim continuar seus afazeres. Ela costurava à mão os trajes e as redes em que todos dormiam. Tudo feito com o algodão que José colhia na roça. Essas tarefas se repetiam por todos os dias até a meia-noite, sob a claridade das lamparinas, pela ausência da energia elétrica. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais divulgada pelo IBGE em 2018, no ano de 2017, 44,8% das pessoas em situação de pobreza estavam no Nordeste.

A rotina de José era na roça com os filhos mais velhos, que começavam a trabalhar com o pai ao completarem 12 anos de idade. O trabalho era de segunda a sábado e o pagamento era em alimentos para a família — o casal não possuía terras para cultivo. A situação era uma preocupação para Maria: os filhos eram muitos jovens para ter essa responsabilidade, mas, por outro lado, era o que precisava ser feito.

E AINDA: Maria Marcada

O dono das terras para quem trabalhavam gostava da família e resolveu doar a eles um pedaço de terra, para que pudessem construir a própria casa. A residência ficou pronta anos depois, com os filhos de Maria já adultos e com pé na estrada, rumo a São Paulo em busca de oportunidades e perspectivas melhores para o futuro.

Por volta de 1991, as coisas começaram a melhorar. Nessa época, os filhos passaram a contribuir financeiramente para ajudar os pais, além de Maria e José conseguirem a aposentadoria. Foi o momento que Maria passou a ter fartura na vida, se sentir realizada por ver seus filhos com uma vida estável e poder dançar um forró pé de serra sem preocupações.

Maria atualmente mora na cidade em que nasceu. Ela conta que o lugar está mais evoluído: tem produtos industrializados, o estudo é mais acessível, tem ônibus para levar as crianças para a escola e as ruas são asfaltadas. A energia elétrica e a água encanada também chegaram, assim como os programas de assistência do governo, como o Bolsa Família. Mesmo com todas as mudanças Maria ressalta: “ainda existem pessoas que passam fome como eu passei e mães que sofrem por ver os filhos em péssimas condições. Isso não é só no nordeste, mas também em outros lugares do mundo”.

José, companheiro de vida de Maria, faleceu há dois anos e deixou imensa falta para a aposentada. Hoje, Maria diz que a união da família foi essencial durante sua trajetória e que olha para trás com muito orgulho de todas as experiências e dificuldades que viveu.

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