Tabus da saúde feminina e violência médica contra a mulher

Falta de conhecimento e procura por ajuda especializada pode resultar em graves problemas à saúde feminina
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Muitas mulheres sofrem com atitudes e comentários desrespeitosos ao longo da gestação e parto, e não sabem que estão sendo vítimas de violência obstétrica

O bem-estar físico das mulheres é algo que não pode ser esquecido ou deixado para depois. É essencial que a saúde receba os cuidados necessários e, ao tocar no assunto, ainda é preciso uma atenção especial, já que falar sobre a saúde feminina, principalmente nas questões íntimas, ainda é sinônimo de muitos tabus.

O que é tabu?

A palavra tabu está diretamente ligada à censura ou proibição de determinados assuntos.

A origem do tabu é antiga, e inclui palavras e assuntos considerados impuros, sagrados, perigosos, que normalmente estão relacionados à sociedade, religião e estilo de vida.

Vale ressaltar que os tabus podem ser diferentes dependendo do lugar, das crenças, do tempo e até das pessoas e famílias. O que poderia ser um tabu na época dos seus avós, talvez seja normal para você hoje. 

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Alguns exemplos de tabus presentes, atualmente, na sociedade ocidental são drogas, tatuagens e piercings, morte, virgindade e, claro, a sexualidade feminina.

Tabus para mulheres

Em tempos antigos, mulheres em período menstrual eram mal vistas pela sociedade. Por volta dos anos 200 a.C., na Grécia Antiga, as mulheres menstruadas eram associadas a algum espírito maligno, como se elas estivessem possuídas, e acreditava-se que ao trocar olhares com uma mulher menstruada, a pessoa poderia ser enfeitiçada.

Um pouco à frente na história, as mulheres eram proibidas de entrar em igrejas durante o período menstrual porque eram consideradas sujas. Na própria Bíblia é possível encontrar a história da mulher que sofria de uma doença que a fez ter um ciclo menstrual constante durante 12 anos. Ela era considerada suja e mal vista pela sociedade, de tal forma que, quando ela encostou na barra da roupa de Jesus e ele perguntou sobre a pessoa que o tocou, ela contou a verdade tremendo de medo do que poderia acontecer.

Mais um exemplo dos tabus relacionados à mulher é a prática da Igreja Católica durante a Idade Média de queimar mulheres na fogueira, por considerar que elas eram bruxas e estavam possuídas por demônios.

A partir de toda a contextualização histórica em volta de mulheres menstruadas é possível entender o porquê da temática menstruação ser um dos tabus da saúde feminina. Com estas visões sobre o período menstrual, que é algo tão natural no corpo da mulhere quanto respirar, os tabus passaram a marcar presença em vários outros temas da vida feminina, como sexo, prazer, libido, vagina, e até mesmo a gravidez e o parto.

Tabus e saúde

Mas, ao pensar que termos e assuntos como estes são tabus, é necessário lembrar que todos eles têm algo em comum: a saúde da mulher.

Especialistas afirmam que um grande número de mulheres no Brasil tem a primeira consulta ginecológica somente após o início da vida sexual, raramente as mães levam as filhas ao médico após a primeira menstruação, que seria o período ideal.

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A falta de conversas, pesquisa e conhecimento sobre sexo, preservativos, métodos contraceptivos, pode resultar em gravidez indesejada, doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), além de vários outros problemas de saúde graves para a vida da mulher.

Por este assunto ainda ser tão reprimido na sociedade, não é raro encontrar relatos de mulheres que desenvolveram doenças no fígado, rins, câncer no colo do útero e outros problemas que podem levar à morte devido à falta de ajuda de profissionais especializados.

Quando se trata da gravidez, a busca por médicos ginecologistas e obstetras é essencial, visto que os cuidados precisam ser triplicados para uma mulher gestante, principalmente porque há outra vida que também depende destes cuidados. 

Exames pré-natais são essenciais para estabelecer os cuidados necessários para que as duas vidas corram menos riscos durante o período da gestação. É por meio deles que é possível identificar os batimentos cardíacos da criança, assim como a posição do bebê, o crescimento e a quantidade de líquido amniótico, descolamento de placenta, diabetes gestacional e hipertensão da mãe.

Violência médica

Além de os temas considerados tabus serem prejudiciais à saúde feminina, há ainda outro fator que impede muitas mulheres de buscarem ajuda médica, mesmo em situações extremamente necessárias: a violência médica.

Em 2019, uma reportagem publicada pelo Intercept Brasil divulgou 1734 casos registrados de violência sexual em instituições de saúde de nove estados brasileiros. Entre as denúncias, foram relatados 16 ocorrências de estupros realizados em CTIs e UTIs no estado de São Paulo, além de mulheres que relataram violência verbal e moral vinda de médicos, enfermeiros e outros profissionais da área.

Mas, para além da violência sexual ou verbal, um tema que tem ganhado espaço nos últimos anos é a violência obstétrica.

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Ao contrário do que muitas mulheres imaginam, a violência obstétrica não ocorre somente na hora do parto, ela pode acontecer na gestação e até mesmo no pós-parto.

Se um médico manipula a mulher para que ela faça uma cesárea, quando ela tem o desejo de tentar um parto natural (no caso de não haver riscos na realização do parto), este ato é considerado violência obstétrica. Da mesma forma que fazer piadas, chacotas, comentários insensíveis e indesejados sobre a gravidez, parto ou o bebê também são outros exemplos da violência.

Outras situações classificadas como violência obstétrica são: impedir a mulher de escolher quem ela deseja que a acompanhe na hora do parto, negar o alívio da dor, omissão de informações, etc.

Mas e quando o assunto é cesariana, indução do parto, anestesiologia ou episiotomia (incisão feita no períneo, área muscular entre a vagina e o ânus, para aumentar o canal do parto)?

Em todos estes casos é necessário que haja esclarecimento à paciente sobre a real necessidade dos procedimentos e é preciso respeitar a vontade da mulher. Quando há omissão de informações, não cumprimento ou até impedimento do desejo da mulher, o médico comete violência obstétrica.

Para evitar a violência obstétrica, um dos primeiros passos é pesquisar sobre o assunto. Um bom começo é assistir à série documental “O Renascimento do Parto”, disponível na plataforma de streaming Netflix. Outra forma de se ambientar ao assunto é buscar mulheres que já tenham passado por situações semelhantes, para saber como identificar sinais de que possa ocorrer o mesmo com você. 

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No caso de um médico insistir que não pode realizar um parto normal ou se recusar a fazê-lo, procure opiniões de outros especialistas, recorra à ginecologistas mulheres e, principalmente, que sejam mães. A violência obstétrica está mais presente no mundo feminino do que se imagina. Conhecer o assunto é fundamental para combatê-la.

Eu sofri violência obstétrica e não sabia, o que posso fazer? A atitude correta é denunciar o profissional (ou a equipe/hospital) na secretaria municipal, estadual ou federal, nos próprios conselhos de classe (CRM para médicos e COREN para enfermeiro e técnico de enfermagem) e também pelo 180 ou Disque Saúde (136).

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