Como a técnica de micropigmentação restaura a autoestima de vítimas do câncer de mama

Fundadora do Instituto Living Sculpture, Lu Rodrigues comanda um projeto social de reconstrução pelo Brasil com mais de mil mulheres beneficiadas
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Divulgação
Lu Rodrigues, micropigmentadora fundadora da rede Lu Make Up e do Instituto Living Sculpture (Foto: Divulgação)

Há um ano, Elisabete Souza não reconhecia seu próprio corpo frente ao espelho. Aos 45 anos, a curitibana estava grata pela vida após dois anos de tratamento contra o câncer de mama que descobriu em 2018, mas ainda assim parecia que algo estava faltando. “É um processo longo. Quando você retira a mama e se olha no espelho, é um grande choque. Passei meses usando enchimento no peito direito para que meu corpo não ficasse desproporcional. Na praia, usava apenas cropped com enchimento e não entrava na água para não estragar o material. Quando coloquei a prótese, pelo menos esse problema foi resolvido, mas ainda faltava algo: minha aréola”, descreve ela sobre sua jornada de aceitação. “O bico do peito faz muita falta.” 

Em agosto de 2021, há apenas três meses, o vazio deixou de fazer parte da vida de Elisabete quando ela se olhou no espelho depois de fazer a primeira sessão de micropigmentação para reconstrução da aréola. “Está tão realista… É só um desenho, mas parece que você vai tocar em um bico real, de tão perfeito que ficou”, conta animada. “No dia seguinte à sessão, as meninas do trabalho ficaram ansiosas para ver como tinha ficado. Elas também elogiaram muito. Estou me sentindo completa novamente”, diz, sobre uma sensação que milhares de mulheres vítimas do câncer de mama buscam diariamente. 

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No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de mama é o carcinoma que mais acomete as mulheres no país – atrás apenas dos tumores de pele não melanoma. Em 2021, a entidade estima a ocorrência de 66.280 novos casos da doença. Mais do que uma preocupação restrita ao mês de outubro, os cuidados preventivos e os projetos de acolhimento para as mulheres que estão lutando diariamente contra a doença não podem tirar férias. Para Luciana Rodrigues – mais conhecida como Lu Rodrigues – micropigmentadora fundadora da rede Lu Make Up e do Instituto Living Sculpture – que realiza reconstruções gratuitas para vítimas de acidentes e doenças -, essa constatação faz parte de sua rotina de trabalho há mais de 20 anos. 

“Sempre pensei em fazer as mulheres felizes, e esse é um trabalho que precisa ser feito o ano inteiro”, destaca. “Quando eu era criança, minha avó sofreu com um câncer no intestino. Isso me despertou para a relação entre saúde e beleza. Muitas mulheres com câncer perdem o cabelo e a sobrancelha e isso as impacta demais. Aos 15 anos, eu já sabia que o simples trabalho de fazer sobrancelhas podia ajudar na autoestima de muitas delas.” 

Com o tempo, no entanto, Lu descobriu a micropigmentação e percebeu que podia fazer muito mais com essa tecnologia, ajudando na reconstrução de cicatrizes por conta de acidentes ou, mais especificamente, de aréolas para mulheres vítimas de câncer de mama. “Na época, 1992, os trabalhos de micropigmentação eram grosseiros. Quando eu vi pela primeira vez, em uma revista no salão de beleza das amigas da minha avó, onde eu trabalhava, meu pensamento foi: é feio, mas tem potencial.” O olhar curioso fez com que ela começasse a treinar e aprender novas técnicas. Chegou até a buscar conhecimento com tatuadores para aprender a lidar com luz e sombra. No final dos anos 1990, deu um passo ainda maior e foi estudar micropigmentação na Alemanha, onde a arte estava bem mais avançada do que no Brasil. Seu objetivo, além de ganhar qualificação, era voltar para sua terra natal com um conhecimento que pudesse impactar as pessoas e o mercado. 

Chegando aqui, Lu se estruturou para entregar um trabalho impecável, principalmente porque estava lidando com a autoestima de muitas mulheres. Até hoje, esse é o seu principal lema. Com a rede de micropigmentação, que já conta com oito estabelecimentos pelo país, conseguiu ganhar reconhecimento no setor e ajudar diversas clientes em seus processos de recuperação. No entanto, em determinado momento, a empreendedora começou a sentir que podia fazer mais do que projetos sociais pontuais. Em 2019, decidiu fundar o Instituto Living Sculpture, com foco no atendimento gratuito para quem não consegue arcar os custos de uma micropigmentação particular. Foi a partir desse serviço que Elisabete conquistou a sua tão sonhada reconstrução. 

“Seis meses depois da prótese definitiva, o médico disse que eu podia me preparar para fazer a micropigmentação se tivesse interesse. Ele até me passou o contato de uma especialista, mas estava muito fora do meu orçamento. Custava R$ 2.500, então eu desisti porque realmente não tinha condições”, lembra.

Até que, em agosto, uma paciente do consultório odontológico onde Elisabete trabalha chegou para uma consulta. Ela também tinha tido câncer de mama e as duas começaram a conversar sobre a reconstrução. “Eu contei o que tinha acontecido e ela, na hora, disse que ia me indicar para um projeto. No dia seguinte, a equipe da Lu me ligou para marcar minha primeira sessão.” 

CUIDADOS IGUAIS

Com a expectativa de terminar todo o tratamento até o início de 2022 – três sessões, no total -, a curitibana já se sente completa com a primeira aplicação. “Eu precisei colocar uma prótese do lado esquerdo também, para igualar com a mama direita, então fiquei com cicatriz dos dois lados. Além de fazer a micropigmentação no lado acometido pelo câncer, trataram a minha cicatriz da mama esquerda também. Foi um tratamento com muita atenção.” Para Lu, esse atendimento igualitário é um de seus objetivos profissionais. 

“Meu grande sonho, após me aperfeiçoar na área, foi contratar profissionais de alto nível para atender essas mulheres”, conta. “Não é qualquer pessoa que pode trabalhar com reconstrução. Precisamos oferecer o melhor serviço possível. São pessoas que precisam de autoestima e não podem receber um trabalho mal feito.” Neste momento, o instituto possui 20 profissionais cadastrados – e escolhidos a dedo – que oferecem atendimento voluntário para fins sociais. O objetivo de Lu é conseguir apoio de grandes empresas para pagar um salário para esses profissionais. Assim, eles conseguiriam doar 100% de sua força de trabalho para a entidade.

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O foco, no fim, é aumentar o impacto social. Um olhar que toma cada vez mais espaço na vida e na mente da empreendedora. “Como agentes da área da beleza, nos envolvemos nas histórias dessas mulheres e começamos a nos viciar pelas ações sociais”, explica. Além das reconstruções, o instituto criou adesivos para aquelas que estão passando pelo tratamento e ainda não podem realizar a micropigmentação. Esses produtos ficam colados no corpo por cerca de sete dias e ajudam no bem-estar durante os procedimentos médicos. Cerca de 50 mil unidades já foram doadas desde 2019. “Para as mulheres que têm dinheiro e querem ajudar, é possível doar qualquer valor para que continuemos as compras de cartelas de adesivos.” 

Além disso, o contato direto com inúmeras mulheres leva à uma reflexão que vai além do câncer. “No meio do tratamento, elas se abrem e conversam com a gente. Foi quando eu percebi que muitas clientes sofrem violência doméstica enquanto tratam o câncer de mama. Elas estão no pior momento de suas vidas e não são acolhidas na suas próprias casas”, revela. “Essa constatação fez com que eu me tornasse embaixadora do Instituto Bem Querer Mulher, que acolhe vítimas de violência com atendimento jurídico e psicológico. Quando uma cliente revela que sofre agressão em casa, consigo ajudá-la de forma mais completa.” 

Todas as histórias que a micropigmentadora ouve durante o trabalho reforçam uma certeza: o Outubro Rosa é muito maior do que um único mês de conscientização. Na realidade, não deveria ter fim. “Quando eu comecei na área, atendia apenas senhoras. Hoje, já tenho muitas clientes jovens. Acredito que isso esteja acontecendo por conta dos autoexames e das descobertas precoces. Por isso é tão importante falar sobre o assunto. Mas temos que entender que o nosso trabalho acontece o ano inteiro, sem pausa”, conclui. Para Elisabete, o mês que marcou o fim de sua luta contra o câncer foi agosto, quando finalmente voltou a se reconhecer frente ao espelho.

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