Conheça a mulher que está revolucionando o setor de cidades inteligentes e inclusivas no Brasil

CEO da Planet Smart City no país, Susanna Marchionni explica que o objetivo principal desses projetos é um só: as pessoas
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Susanna Marchionni em foto de divulgação
No Brasil desde 2015, Susanna Marchionni já se considerada uma brasileira nata (Foto: Divulgação)

No início da entrevista concedida a Elas Que Lucrem, Susanna Marchionni decidiu aproveitar os poucos minutos antes do início das perguntas para declarar o seu amor pelo Brasil. Italiana de nascença e brasileira de coração – como ela mesma se define -, a executiva faz questão de exibir o português que aprendeu nos seus últimos oito anos vivendo no país. “Eu tenho um pouco de sotaque, mas juro que sou brasileira também”, brinca. Com documentos nacionais em mãos e nenhuma vontade de voltar a morar na Itália, é assim que ela se apresenta para quem não a conhece. 

Cerca de uma década atrás, no entanto, nem a própria Susanna conhecia essa versão “brasileiríssima” de si própria. Até então, o Brasil era apenas a imagem estereotipada de um país tropical na América do Sul. Rio de Janeiro, praias, futebol e Carnaval – a clássica visão estreita divulgada com veemência no exterior. Foi apenas em 2015, enquanto desenvolvia um projeto da Planet Smart City – empresa focada na criação de cidades inteligentes e inclusivas -, que uma nova realidade brasileira lhe foi apresentada. “Conhece o Ceará?”, questionou o seu parceiro de trabalho da época. Ela não conhecia, mas, desde então, o estado não saiu mais de seus pensamentos. 

“Assumo que não sabia nada sobre a região. Mesmo assim, alguns meses depois – após algumas pesquisas no Google -, eu embarquei para lá a fim de colocar o projeto da Planet em prática”, recorda. Nas breves pesquisas que fez sobre o local, descobriu que o Ceará era rico em belezas naturais e culturais – e, é claro, se empolgou para conhecer tudo isso. Mas o que a fez sair da Itália, na realidade, foi um grave problema enfrentado pelo estado: o déficit habitacional. 

O Brasil, no geral, é um país com alta carência de moradia. O Censo Demográfico de 2020 não foi realizado em função da pandemia de Covid-19, por isso, os dados mais recentes são de 2019. Mesmo assim, é possível ter uma boa noção sobre o cenário atual. De acordo com a última pesquisa, o déficit habitacional em todo o país foi de 5,8 milhões de moradias naquele ano, das quais 79% concentraram-se em famílias de baixa renda. 

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O estudo também indicou que 87,7% do déficit habitacional quantitativo (moradias em falta, seja por habitação precária, coabitação familiar, pessoas demais por metro quadrado ou custo alto de aluguel) está nas áreas urbanas. Além disso, mostrou que o déficit absoluto no Brasil passou de 5,6 milhões em 2016 para 5,8 milhões em 2019. Um problema que só aumenta – e que Susanna já enxergava em 2015. 

Foi em meio a tantos dados preocupantes sobre a questão no Brasil que sua equipe encontrou o Ceará. As pesquisas de 2019 também mostraram que o Nordeste é a região brasileira que lidera o déficit habitacional no país, sendo o Ceará o quarto estado da região neste levantamento, com 335.370 unidades. Sendo assim, é claro que Susanna se animou pela beleza dos pontos turísticos desse oásis tropical chamado Brasil, mas seu objetivo estava longe do viés turístico.

“Eu disse para a minha mãe que ficaria apenas oito meses para colocar o projeto em funcionamento e voltaria para a Itália. Já estou aqui há oito anos e não volto mais”, brinca a executiva. O motivo da estadia prolongada, como foi dito logo no início da entrevista, é a paixão, mas muito mais pela real possibilidade de gerar impacto do que pelas belezas tupiniquins. 

Após a criação da Smart City Laguna, no município de São Gonçalo do Amarante (a 55 km de Fortaleza), a italiana sentiu na pele o quanto as cidades inteligentes e inclusivas poderiam mudar a vida das pessoas. A primeira cidade inteligente do país – e a primeira inclusiva do mundo – foi projetada para abrigar 25 mil pessoas e já conta com mais de 100 famílias morando no local. Para essas pessoas, existe acesso livre e gratuito a bibliotecas, cinema, academia, workshops, cursos e um aplicativo próprio, o Planet App, com mais de 50 soluções inteligentes. 

“Não trabalhamos apenas com cidades inteligentes. São cidades inteligentes e inclusivas, ao alcance de todos. No Brasil, iniciativa semelhante era o ‘Minha Casa Minha Vida’, agora rebatizado para ‘Casa Verde e Amarela’. Mas esses programas têm alguns problemas estruturais”, explica. “Um projeto habitacional inclusivo exige uma estrutura de alta padrão, independentemente do público-alvo. Os moradores precisam ter segurança e acesso à cultura. É mais do que ter um teto.” 

Quando começou a falar sobre essa tendência para os brasileiros, no entanto, Susanna percebeu uma outra diferença cultural. “Lembro de um menininho, em uma inauguração de cinema, que me perguntou: ‘Tia Suzy, quando as eleições passarem, isso aqui vai fechar?’. Uma criança italiana jamais pensaria assim”, destaca. “Eu não sou política, não preciso de votos, mas essa é uma maneira muito brasileira de pensar, um reflexo da forma como a população é tratada.” 

“QUANDO A ESMOLA É DEMAIS, ATÉ O SANTO DESCONFIA”

Quando a população é parte de um cenário no qual ninguém olha para ela com a intenção de construir um futuro melhor, é difícil fazer com que acredite que determinada ideia ou projeto não se trata de golpe ou de uma grande fraude. “Nossa maior dificuldade no início foi a descrença do povo”, ressalta Susanna, que enxerga nessa falta de esperança um grande impacto negativo. 

“Como ensinar uma criança que ela não pode jogar papel no chão se ela vive em um lugar com falta de estrutura de limpeza e saneamento? E, se a criança vive nessa realidade, como convencê-la de que merece algo melhor?”, questiona. “O público dos programas habitacionais está acostumado a não receber nada. Quando algo bom aparece, eles desconfiam. Muitos pais também não deixavam os filhos usarem o nosso cinema porque não acreditavam que era gratuito, por exemplo. Conquistar a confiança dessas pessoas foi um trabalho que exigiu empenho.” 

Para ela, esse processo conturbado apenas provou – com mais força – a importância da inclusão social. Para as crianças que têm a oportunidade de crescer em uma cidade inteligente e inclusiva, com qualidade de vida, é mais difícil deixar de sonhar. “Hoje, temos crianças no interior do Ceará que podem falar ‘a minha biblioteca’, ‘o meu lugar’. Esse conceito de pertencimento é muito importante. Isso faz com que as pessoas cuidem do ambiente e cultivem o empoderamento”, explica. 

“Já conheci muitas pessoas mais velhas no Brasil dizendo que nasceram pobres e que nada mudaria a realidade delas. Pessoas que perderam a esperança. Ao mesmo tempo, conheci crianças que começaram a aprender que elas também têm direito. É isso que acontece quando a educação, a infraestrutura e a saúde de um lugar funcionam. Essa é a discussão por trás das cidades inteligentes.” 

A TECNOLOGIA É O MEIO

Atualmente, sob a liderança global de Stefano Buono, a Planet Smart City conta com uma gestão de capital e investimento com mais de 400 sócios e projetos no Brasil, Itália, Estados Unidos, Índia e, até o final do ano, na Colômbia. Por aqui, os projetos contemplam Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia e São Paulo – neste último, com projetos verticais que incluem mais de 2.500 apartamentos. O objetivo é chegar a todos os estados brasileiros, mas Susanna destaca a importância da informação sobre o que é, de fato, uma cidade inteligente. 

Por meio da conectividade, essas cidades exploram a tecnologia para oferecer um sistema de contato entre todos os moradores e até promover segurança. Não há muros ou portões cercando o espaço – assim como não há cobrança de condomínio. Dessa forma, abertas ao mundo, as cidades exploram ao máximo a tecnologia. Os projetos incluem, por exemplo, câmeras de videomonitoramento 24 horas em pontos estratégicos da cidade, que desestimulam ações que ameacem os moradores. 

No entanto, mais do que aparelhos de alta tecnologia, o que faz a segurança de uma cidade inteligente, segundo Susanna, é o combo formado pela integração da vizinhança, inclusão social, soluções urbanísticas, espaços compartilhados e ocupação das áreas públicas. Tudo isso para gerar o sentimento de pertencimento. Para ela, esse cenário faz com que as pessoas se preocupem com o espaço onde moram e com os vizinhos a sua volta. Resumidamente, a tecnologia é o meio, e não o fim.

O fim, para a italiana mais brasileira da última década, é o aspecto humano de cada projeto. “É sempre sobre as pessoas”, conclui.

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