Contratadas durante a gravidez, três profissionais contam como superaram o tabu no mercado de trabalho

Participação de mulheres grávidas em processos seletivos ainda desperta inseguranças e preconceitos por parte dos recrutadores
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Gabriela Baldivia chegou a enviar 500 currículos antes da contratação (Foto: Arquivo Pessoal)

Depois de anunciar a gravidez na empresa onde trabalhava, Gabriela Baldivia, atualmente analista de recursos humanos da agência Raccoon, sentiu o clima mudar. De uma semana para outra, deixou de ser chamada para integrar projetos ou realizar cursos com o time. “Minha gestação não foi tão bem recebida. Eu me sentia um problema”, conta.

A preocupação e estresse com a carreira acabaram desencadeando crises de ansiedade que a fizeram, sob orientação médica, optar pelo desligamento do grupo. Mesmo assim, a mãe de primeira viagem decidiu persistir na recolocação profissional nos meses seguintes. Não achei que fosse conseguir. Precisei mandar mais de 500 currículos”, admite. 

No Brasil, o pessimismo da profissional – infelizmente – encontra respaldo. Sete em cada dez mulheres do país afirmaram que o tema gravidez foi abordado nas últimas entrevistas das quais participaram, segundo uma pesquisa divulgada pela Catho em 2019.

O preconceito se tornou ainda mais óbvio quando Gabriela passou a se inscrever em processos seletivos. Apesar de manter contato frequente com os recrutadores e enviar cartas de apresentação, a analista recebia pouquíssimas respostas – ainda que negativas. “Cheguei a fazer testes online e me saí muito bem. Mas não fui chamada. Em outras entrevistas, mesmo com feedback positivo, as empresas optaram por não me escolher. Já chegaram até a desmarcar reuniões com o RH depois que eu informei que estava grávida”, afirma. 

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Assim, quando foi chamada para ingressar na seleção da Raccoon aos sete meses de gestação, seu primeiro instinto foi declinar. “Na minha cabeça, não fazia sentido alguém me contratar para que eu entrasse em licença três meses depois”, diz. No entanto, a insistência da empresa a fez perceber que a maternidade não era um obstáculo em todas as companhihas. “Quando, finalmente, fui contratada, senti uma alegria imensa. Quero ter sucesso na carreira para inspirar meu filho”, destaca a mãe do Matheus, hoje com cinco meses.

Soft skills da maternidade devem ser valorizadas

Para Mariana Horno, mãe e gerente sênior da consultoria Robert Half, as empresas costumam evitar a contratação de gestantes devido a receios ligados à performance, incluindo aumento de faltas e baixa produtividade. Causas que, para a especialista, não justificam a exclusão em recrutamentos. “Antes de mais nada, é fundamental que as companhias encarem a contratação como um investimento naquela profissional no longo prazo que não deve ser impossibilitado por conta do período de licença-maternidade. Ao avaliar o período de afastamento, cabe analisar qual é o seu significado na carreira de uma mulher. Quantos anos de produtividade e retorno são comparados ao tempo de ausência?”, pergunta.

A gerente ainda destaca que o critério utilizado para excluir gestantes de entrevistas é amparado em suposições que dificilmente conseguem captar as diferentes perspectivas da questão. “Se a candidata optou por participar do processo seletivo, é porque existe uma rede de apoio que a tranquiliza”, diz. Ou seja: no fim, o que deve valer é sempre a qualificação, e não outras características que podem interferir no trabalho. 

Por outro lado, felizmente vem crescendo o movimento de acolhimento materno por parte das empresas. Segundo Mariana, grandes companhias já perceberam a importância de garantir apoio às profissionais nesse momento, valorizando, inclusive, as soft skills desenvolvidas pelas mães. “A vivência da maternidade desenvolve e aprimora competências socioemocionais que, atualmente, são extremamente valorizadas pelo mercado, como inteligência emocional, senso de urgência, olhar resolutivo e empatia, entre outras”, afirma.

Bruna ficou insatisfeita com o tratamento que recebeu da empresa onde trabalhava no inicio da gravidez (Foto: Reprodução/LinkedIn)

Quando engravidou de Marina, no último ano, Bruna Martins precisou enfrentar as consequências do despreparo da companhia onde trabalhava. “Estava com enjoos bem recorrentes e o médico me deu um atestado para permanecer em home office”, conta. Mesmo em tempos de pandemia de Covid-19, a recomendação acabou sendo recusada pelos diretores da época. “Não me deram uma segunda opção, o que me deixou bem insatisfeita”, diz. 

Pouco tempo depois, a atendente acabou sabendo de uma vaga na Localiza, empresa de aluguel de carros. “Falei para a amiga que me mostrou o anúncio que não ia dar certo, porque eu estava grávida. Mas, mesmo assim, resolvi mandar o currículo”, lembra. Três dias depois, Bruna foi chamada para fazer a primeira etapa do processo seletivo e, em algumas semanas, acabou contratada.

Logo de cara, os benefícios relacionados à maternidade fizeram com que a profissional voltasse a traçar planos sobre a própria carreira. Além da licença-maternidade, ela conseguiu adiantar as férias e permanecer em home office até, literalmente, o dia do parto. “Trabalhei até 40 semanas de gestação e consegui bater todas as metas”, afirma. O sentimento de acolhimento foi tão grande que os enjoos iniciais melhoraram e a gravidez acabou sendo mais tranquila do que o esperado, conta ela. “Recentemente, quando voltei, já bati meus resultados anteriores e me senti super feliz por isso.”

Empresas têm papel importante na conciliação entre carreira e maternidade 

Grávida de seis meses, Áquila iniciou um novo emprego há um mês (Foto: Reprodução/LinkedIn)

No caso de Áquila Porfirio, a surpresa foi dupla. Considerada infértil devido a um tumor na região uterina, a profissional jamais imaginaria que conseguiria se tornar mãe – muito menos na mesma época em que realizava o sonho profissional de ingressar no meio corporativo. “Atuei por dez anos como professora de programação e, nos últimos quatro, decidi me capacitar para atuar em empresas de tecnologia. A gravidez não estava nos planos, mas acabou acontecendo simultaneamente a essa transição de carreira”, explica. 

Hoje, grávida de seis meses, a executiva está prestes a completar um mês de atuação na gigante de consultoria Accenture. Para ela, a dificuldade em associar a gestação ao mercado de trabalho é tão grande que interrompeu a busca profissional no período. “Confesso que quando recebi o convite da empresa para fazer uma formação só para mulheres, aceitei sabendo que não seria selecionada no final. Para a minha surpresa, trataram o assunto com naturalidade e deram continuidade à contratação”, relata.  

Aos 32 anos, a engenheira de software assume que sentia receio em relação aos danos que a maternidade poderia trazer à carreira – que incluem desde a estagnação até o desemprego. De acordo com levantamento da Fundação Getulio Vargas, quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade permanecem fora do mercado de trabalho por até 24 meses após o nascimento da criança.

No ponto de vista de Áquila, as empresas devem se esforçar para receber as mães da mesma forma que elas mesmas se empenham para dar conta da jornada dupla. “A maternidade não deveria ser um impedimento profissional”, pontua. Entre os benefícios que tendem a contribuir para a conciliação da carreira com a maternidade, conforme destacado pela gerente da Robert Half, estão auxílio-creche, flexibilidade de horários, licença-parental, coaching profissional e outras iniciativas voltadas à equidade de gênero. 

Para Mariana Horno, mais importante do que promover ações pontuais, é o esforço para mudar a cultura da empresa, buscando sempre o estabelecimento de ambientes mais empáticos e agregadores. “Se essa mulher for amparada durante a  maternidade, ela tende a voltar muito mais forte ao trabalho, motivada e engajada para contribuir com a companhia que a apoiou em um dos momentos mais importantes de sua vida”, conclui. 

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