Apesar dos debates sobre equidade, mulheres ainda são minoria absoluta no comando de instituições financeiras no país

Atualmente, apenas duas delas estão à frente de bancos no Brasil: Ana Karina Bortoni, no BMG, e Francine Mendes, no Ellebank
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Ana Karina Bortoni é a primeira mulher CEO de um branco brasileiro (Foto: Divulgação)

Apesar da popularização do debate a respeito da equidade de gênero nos últimos anos, os números relacionados à presença feminina no setor de finanças mostram que a área caminha a passos lentos nesse sentido. O último relatório do Guia dos Bancos Responsáveis, realizado com os dados referentes a 2020 e 2019, mostra que as mulheres brasileiras são minoria absoluta na liderança de instituições financeiras nacionais. 

Entre os nove principais bancos do país – Banco do Brasil, BNDES, Bradesco, BTG Pactual, BV, Caixa, Itaú, Safra e Santander -, quatro deles (BNDES, BTG Pactual, BV e Safra) possuíam participação feminina nula no conselho de administração até 2019. No quadro geral de funcionários, por sua vez, a presença de mulheres só superou a marca de 50% em três instituições – Bradesco, Itaú e Santander -, enquanto nos cargos de diretoria as profissionais representaram, em média, apenas 14,33% das cadeiras disponíveis nesse período. Sobre perspectivas futuras, apenas o Santander declarou ter uma meta mensurável de lideranças femininas, com ambição de chegar a uma representatividade de 28% até 2025.

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No caso das CEOs, a situação é ainda pior. Atualmente, no Brasil, existem apenas três mulheres à frente de instituições financeiras: a química Ana Karina Bortoni, que lidera o BMG desde 2019 (também a primeira mulher CEO de um branco brasileiro), Cristina Junqueira, que assumiu o comando do Nubank em abril deste ano, e a economista Francine Mendes, que fundou a femtech Elas Que Lucrem no início de 2021 e, agora, está à frente do Ellebank, um banco feito por mulheres para mulheres, com uma série de produtos pensados, especificamente, para o público feminino. 

Vieses inconscientes, heranças culturais e autolimitações são alguns dos fatores que influenciam esse cenário, de acordo com Carolina Cavenaghi, CEO da FIN4SHE, plataforma de conexão do ecossistema financeiro para mulheres. “Não só existe um gap na presença feminina no setor de finanças, como também uma lacuna de mulheres dispostas a falar sobre dinheiro”, diz. Para a executiva, é nítido como desde pequenas as meninas são incentivadas a seguir carreiras voltadas para humanas, o que dificulta o caminho rumo à igualdade. “Muitas vezes, essa ideia parte das próprias profissionais, então a desconstrução desse modelo deve ser uma tarefa diária”, propõe.

Na visão de Lívia Felix, CEO da edutech Financier Educação, uma grande parcela da sociedade ainda enxerga o mercado financeiro como um ambiente agressivo, onde não há espaço para a “fragilidade” feminina. “Nós não temos nada de sexo frágil, muito pelo contrário”, diz. Uma vez inserida nesse meio, a mulher ainda precisa dar conta de constantes comparações e provações, como relata a diretora, que afirma ter vivenciado situações do tipo ao assumir o comando da empresa educacional. “Como uma jovem mulher negra, eu senti e sinto muitas dores relacionadas ao meu posto. Em reuniões e eventos, as pessoas me olham de maneira diferente, sempre esperando que eu me posicione, que eu prove o quanto mereço aquilo que conquistei.” 

Mudança de mentalidade

Para contornar as estatísticas, na visão das duas executivas, as ações em prol da equidade devem acontecer de maneira multilateral. Nesse sentido, tanto a sociedade quanto as empresas possuem seus papéis para incentivar e viabilizar a inserção de mulheres no segmento. “É um trabalho em sociedade, com frentes que coexistam”, diz Lívia. A criação de políticas eficazes de diversidade, assim como o aumento da representatividade e a disseminação de uma cultura de pertencimento, são algumas das práticas possíveis quando o assunto é captar e reter talentos femininos, afirmam.  

Ainda no âmbito empresarial, Carolina alerta que a pauta de gênero não deve ser tratada como mais uma “moda” aderida pelas equipes de recursos humanos – e sim como um objetivo digno de ações eficazes e assertivas. No mercado financeiro internacional, por exemplo, desde julho de 2020 o quinto maior banco dos Estados Unidos, o Goldman Sachs, decidiu que não iria mais apoiar as ofertas iniciais de ações (IPOs) de empresas cujo conselho administrativo fossem compostos apenas por homens brancos. 

Internamente, as ações podem ser voltadas a preencher lacunas e problemas comuns às profissionais de quase todos os segmentos. “Hoje, nós falamos muito sobre a criação de um plano de carreira diferente para as mulheres, já que muitas abandonam o trabalho por motivos diversos [segundo dados da Organização das Nações Unidas, só na América Latina 17 milhões de profissionais saíram do mercado durante a pandemia.] Também é interessante pensar em um cálculo de metas diferenciado para aquelas colaboradoras que são mães, porque muitas delas terão uma defasagem de produtividade”, diz a fundadora do FIN4SHE. 

Quando o assunto salta para os vieses incorporados pelas próprias mulheres, as executivas concordam: não adianta cair no mito da super-heroína. “Propagar a imagem da líder perfeita é tudo o que não queremos”, diz Carolina. Além da cobrança exacerbada sobre si mesmas, elas podem contribuir para que a expectativa de uma gestão fora da curva mine a carreira de outras mulheres que acreditam ser menos do que os seus colegas do sexo masculino. “Tanto a equidade quanto o feminismo tocam essa questão: você não precisa ser mais do que os homens, você só precisa garantir o espaço para ser você”, pontua Lívia.  Inclusive, como aponta a CEO da plataforma de conexão, os homens podem e devem ser convidados para discutir a pauta da representatividade feminina em diferentes segmentos, incluindo o financeiro. “O objetivo é aproximar, não afastar”, diz.  

LEIA MAIS: Luiza Trajano é a única brasileira na lista das 25 mulheres mais influentes do mundo em 2021 do “FT”

Além disso, para uma mudança de mentalidade ainda mais eficaz, o trabalho de equidade deve começar bem antes, ainda na fase escolar. Mostrar para as jovens que elas também pertencem ao setor financeiro, explicam as especialistas, é o primeiro passo para o aumento da oferta de profissionais. E isso não vale apenas para o âmbito de carreira, mas da vida financeira como um todo. Afinal, a lacuna da presença feminina também é visível no número de investidores – elas representam apenas 27,9% do total de pessoas físicas na bolsa de valores brasileira, segundo dados da B3 e da XP Investimentos – e na quantidade de brasileiras desbancalizadas – a maior parte dos 10% de brasileiros sem conta em banco são mulheres, de acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva. 

Se os números não mentem, a verdade é que o mercado financeiro só tem a ganhar com o aumento de líderes femininas. Isso porque um estudo feito pela consultoria de desenvolvimento de liderança Zenger/Folkman mostrou que, no comando, as mulheres são até 84% mais eficientes do que os seus correspondentes masculinos, incluindo vantagens em critérios como tomada de iniciativas, resiliência, foco nos resultados e integridade. “Como diretora de uma plataforma financeira educacional, posso afirmar que mulheres incríveis e bem qualificadas só têm a oferecer para o segmento. Não existe essa história de sermos mais conservadoras ou avessas a riscos. O que há é uma visão multifacetada que nos permite gerar soluções para hoje já pensando no amanhã”, conclui Lívia Felix. 

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