Vanessa Viana: uma desbravadora do caminho para as mulheres no mercado financeiro

Como executiva do setor, ela enfrentou obstáculos até conseguir fundar um departamento inteiro no Bradesco e depois escolher novos rumos na carreira para se dedicar aos investimentos em startups de tecnologia
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Vanessa Viana, sócia da Capital Lab Ventures, escolheu mudar os rumos da carreira depois de 20 anos no mercado financeiro tradicional no Brasil (Foto: Divulgação)

Uma mulher com pouco mais de um metro e meio de altura e um salto agulha de 15 centímetros para encarar uma roda masculina no mercado financeiro. “Eu tinha que ter um pouquinho mais de altura. Chegava até a comentar que estava fora do ângulo de visão deles”, brinca.

Com a formação, experiência e vocação de Vanessa Viana, o salto alto era mero detalhe. O preparo da executiva é que fez a diferença no segmento durante anos. Ela é co-fundadora do departamento de Private Equity do Bradesco e participou do financiamento a projetos grandiosos no Brasil por nove anos.

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Agora, este talento é direcionado para o mercado de Venture Capital – dos grandes fundos de investimentos que procuram start ups extremamente tecnológicas.

Vanessa é sócia da Capital Lab Ventures, fundo que investe em startups globais de tecnologia aplicada à indústria. 

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Uma trajetória de 20 anos de conquistas, dedicação aos estudos e ao trabalho. Sobretudo, uma história de enfrentamento de preconceitos contra as mulheres no mercado financeiro.

Vanessa é uma desbravadora. Daquelas cuja coragem ajuda outras mulheres a enfrentarem um caminho menos desafiador até as conquistas profissionais e pessoais.

E você vai conhecer, agora, esta história.

EQL – Conta um pouquinho sobre sua origem.

Vanessa Viana – Há muito tempo ninguém me fazia esta pergunta. De nós, mulheres, nossa família não tem muita expectativa de que a gente vire banqueira, investidora. Mas a minha família sempre foi muito aberta e me incentivou a fazer as coisas que eu queria. Eu era bailarina clássica e meu desejo era viver das artes. Eu gostava também de escrever. Mas comecei meus estudos acadêmicos no Canadá porque meu pai é professor e pesquisador universitário e foi fazer lá um ano sabático na McGill University. Desta forma, eu e minha irmã tivemos esta oportunidade de uma educação em outro país. E teve um momento em que tive que decidir. Sempre fui muito apaixonada por economia porque eu acredito muito no potencial que o capital tem de criar círculos virtuosos. Eu vejo o capital como uma ferramenta que pode ser usada de várias formas. Se ela é usada de uma forma ruim, causa depressão econômica, mas se é usada corretamente, você consegue de fato promover o círculo virtuoso para todo o ecossistema que está em volta.

EQL – Como você se preparou para atuar no mercado financeiro?

VV – O trabalho que eu faço hoje na Capital Lab Ventures vem depois de 20 anos de carreira no mercado financeiro e de capitais. Eu me formei em Economia e tenho mestrado na Fundação Getulio Vargas em Economia e Finanças. Mais recentemente eu fiz um mestrado aqui em Londres, na London School of Economics em Tecnologia e Inovação e Sistemas de Informação. Era a formação mais tecnológica necessária para eu trabalhar com Venture Capital. Eu tinha uma carreira muito sólida em mercado de capitais, mas pensei: “A forma de olhar para isso é diferente da economia tradicional”. Foi um dos melhores investimentos que eu fiz na minha vida.

Formatura de Vanessa Viana em Tecnologia e Inovação na London School of Economics. “Foi um dos melhores investimentos que eu fiz na minha vida” (Foto: divulgação)

EQL – Você tem um período longo de Bradesco e criou um departamento lá. Conta para nós como foi esta experiência?

VV – Eu me sinto muito privilegiada porque eu fui a co-fundadora do Bradesco Private Equity. E por que isso é tão importante? O Bradesco é o segundo maior banco privado da América Latina e não é só um banco. É um banco dentro de um grupo financeiro que tem seguradora, cartão de crédito, processadora, banco digital e banco de investimento. Eu via a economia através de um dashboard – painel que contém informações, métricas e indicadores da empresa – e tive a oportunidade de construir esta história do zero. Quando eu comecei a trabalhar lá tinha uma mesa e uma lâmpada. Eu não tinha nem computador. Eu participei de tudo mesmo, da criação, do primeiro contrato. Eu fazia a gestão de um fundo de R$ 2 bilhões que inicialmente era focado em grandes investimentos na cadeia industrial como infraestrutura, petróleo e gás, telecomunicações e cadeia logística. Eram grandes cheques. Em 2011, a gente fez o primeiro investimento seed – semente em inglês, quer dizer investimento em startups – da história do Bradesco. Foi uma escola. Todos os projetos importantes da economia brasileira passaram por ali. Uma responsabilidade gigante. Eu tive muita sorte.

EQL – Sorte e esforço, não é?

VV – Esta pauta da mulher eu posso falar um monte de coisas. Sempre tive que trabalhar três vezes mais do que qualquer homem. A gente tem que fazer muito mais para conseguir chegar ao mesmo lugar. Isso me transformou em uma profissional muito melhor, mas ainda existe esta questão.

EQL – E no mercado financeiro? Você começou a carreira no início dos anos 2000. Como foi o seu caminho na questão de gênero?

VV – Até eu atingir o nível de gerência, foi um céu de brigadeiro. Como analista, fui recebendo promoções e conquistava os projetos ainda na carreira de consultoria internacional. Quando eu virei gerente, aconteceu um episódio durante um M&A – sigla em inglês para o processo de fusão e aquisição de empresas. Veio um cliente novo com um projeto bem difícil do ponto de vista do risco porque era na área de seguros. Existiam questões até envolvendo segurança física na due diligence – processo de análise e avaliação de uma empresa – que eu iria fazer. Aí, a secretária da empresa onde eu trabalhava me chamou e falou: “Você sabe por que o diretor não te passou este projeto?” Eu respondi que não. “Porque você é mulher”, ela disse. Eu duvidei na hora. Hoje, olhando para trás, eu penso que, talvez, ela tenha um pouco de razão. Existem também situações até engraçadas de estar em reunião com altos executivos e a conversa na rodinha ser sobre filhos. Um CEO virou para mim e perguntou: “ E você, Vanessa, tem filhos?” Em seguida, um dos diretores com quem eu trabalhava virou e falou: “Vanessa, você não pode ter filho, não. Você está montando este negócio aqui, entendeu?” Eu não sabia se ria ou qual reação ter na hora. Por que eles podem ter filhos, netos, ser super felizes com suas famílias e nós, executivas, não temos o mesmo direito enquanto montamos um negócio? Eu nem acho que foi maldade. É um fator cultural. Então, eu acho que quanto mais alto na carreira, menos as oportunidades aparecem e mais difícil fica para as mulheres estarem na mesma equivalência de ganhar uma oportunidade em um cargo de diretoria. São coisas que estão no inconsciente coletivo que vêm de questões antropológicas e culturais.

Vanessa Viana: “Eu não tive filhos. A que horas eu poderia ter filhos? Eu chegava ao banco às 8 horas da manhã e saía à meia noite, quando eu saía cedo. Não deu tempo. Mas sou muito feliz com minha decisão” (Foto: Divulgação)

EQL – Vanessa, você acha que há um esforço dos homens em tentar entender, assimilar e melhorar em relação a isso?

VV – Eu acho que existem homens incríveis e sempre agradeço porque eu só cheguei aonde estou com muita ajuda masculina. Muita. Agora, existem homens que pensam assim e têm cabeça aberta e tentam criar os mecanismos para ajudar, mas existem homens que não têm nem a consciência do que está acontecendo, especialmente, no mundo em que eu vivi, o mundo de banco de investimentos. A maioria ainda vive naquele mundo sob as regras do homem branco, alto e de olho azul, como se diz em inglês. Eu sou uma pessoa baixa, tenho um pouco mais de 1 metro e meio. E eu sempre trabalhei com esses caras usando um salto 15 agulha. Tipo filme de Hollywood. Porque eu tinha que ter um pouquinho mais de altura. Chegava até a comentar que estava fora do ângulo de visão deles (risos). Mas existem homens que têm consciência e nos ajudam e eu só posso agradecer a eles porque eu tinha a síndrome de impostora. Eu não acreditava em mim, ia para as reuniões com medo e o estômago colado nas costas. Eu tinha medo de abrir a boca. E, entre os homens, tenho que agradecer até o meu ex-marido, alto executivo do setor de telecom, que me ajudou pra caramba. Inclusive, meus sócios atuais que são pessoas sensacionais que têm preocupação com as políticas de ESG – sigla em inglês para boas práticas no meio ambiente, social e governança – e em colocar mulheres na liderança, mulheres negras e de outras etnias. Mas estes homens ainda são uma minoria.

EQL – E a relação filhos e carreira executiva?

VV – Algo muito complicado que não se fala aqui e nem em lugar algum é em relação às empresas que não pensam em montar uma estrutura para as mulheres que têm filho. Um berçário ou um suporte a essas mulheres. Se as multinacionais têm secretárias para fazer reserva de carro, de avião, por que não podem ter uma área, junto com seguro saúde, auxílio alimentação e benefícios, voltada a ter um lugar onde as mulheres possam deixar seus filhos para ir ao trabalho? Por que não se fala nisso no planeta? Não estou falando só de Brasil. Eu não tive filhos. A que horas eu poderia ter filhos? Eu chegava ao banco às 8 horas da manhã e saía à meia noite, quando eu saía cedo. Não deu tempo. Mas sou muito feliz com minha decisão. E amo o meu trabalho e meu reloginho nunca bateu. Mas, nem todas as mulheres são que nem eu. Tem muitas mulheres que querem ter filhos. Óbvio. Abrir mão deste poder que a gente tem de gerar vida é muito complicado. Ainda posso ter filho, mas foi muito complicado pra mim pensar: “Vou abrir mão disso?” A sociedade como um todo ainda não criou um mecanismo para ajudar mulheres a chegarem à liderança. Eu já escutei por mais de uma vez na vida: “Não contrato mulher porque engravida”. E de homem 10 anos mais novo que eu.

EQL – O mercado de Venture Capital é agressivo na questão de gênero?

VV – As estatísticas são horrorosas, mas não é só no mercado de Venture Capital. É no mercado financeiro como um todo. Eu vou te dar um exemplo. Eu fiz dois mestrados, um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Nos dois, a turma era de 45 pessoas das quais cinco eram mulheres. A gente não pode continuar com esta representatividade. No mercado de Venture Capital, de acordo com pesquisas recentes, 4,7% das startups são fundadas por mulheres. O número de startups fundadas por homens é 20 vezes maior. Aí, você vai olhar os subsegmentos destas startups de mulheres e estão nos ramos de moda, RH e gestão de pessoas, negócios sociais e alimentação.

EQL – Como foi sua entrada no segmento de Venture Capital?

VV – Eu fiz um planejamento pessoal porque eu queria muito entrar nesta área de tecnologia. Foi uma migração pensada e estudada na minha carreira. Durante o mestrado em Londres, me encontrei com meus sócios que eu havia conhecido em negócios anteriores, enquanto ainda estava no Bradesco. Nós fizemos um road show – período de apresentação de uma empresa e dos seus produtos – e foi assim que me juntei à Capital Ventures. E isso é uma outra dica para as mulheres. A gente tem que construir nossa carreira. E nós somos agentes de mudança. Se a gente ficar esperando ser promovida, isso acontece com os homens. É natural. É esperado que os homens sejam promovidos. Com as mulheres, não é esperado ainda. Então, a mulher tem que tomar determinadas atitudes para conseguir sair do nível em que está para atingir um nível acima. Eu até procuro dar coaching para mulheres e falar como eu me planejo, me organizo. Eu quero que a nova geração não tenha que passar pelo que eu passei.

Luciene Miranda é repórter especial e colunista na Elas Que Lucrem

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