Quem é Frances Haugen, a mulher que está enfrentando o Facebook

Ex-funcionária da gigante de tecnologia vazou informações confidenciais para provar o descaso da empresa com a segurança dos usuários
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Reuters/Michele Tantussi
Frances Haugen é filha de dois professores e, durante a infância, participou de movimentos estudantis em função do ofício dos pais (Foto: Michele Tantussi/Reuters)

No primeiro final de semana de outubro, antes do apagão que fez com que os serviços do Facebook ficassem fora do ar por quase seis horas, a norte-americana Frances Haugen já causava turbulências na companhia do bilionário Mark Zuckerberg. Responsável pelo vazamento de documentos internos bombásticos publicados pelo “Wall Street Journal”, a ex-funcionária de 37 anos falou sobre o assunto para a CBS e afirmou que o material divulgado provava o descaso da gigante de tecnologia com a segurança de seus usuários. 

“O Facebook percebeu que, se mudar o algoritmo para ser mais seguro, as pessoas vão passar menos tempo no site, vão clicar em menos anúncios e, consequentemente, a empresa vai ganhar menos dinheiro”, disse ela na ocasião. Um dia após o apagão, em 5 de outubro, Frances prestou depoimento ao Senado norte-americano em uma audiência intitulada “Protegendo Crianças Online” e, como já era esperado, fez um apelo aos parlamentares pela regulamentação da rede social, comparando a atuação do Facebook às antigas empresas de tabaco, que por décadas negaram que fumar fazia mal à saúde. 

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“Quando percebemos que as companhias de cigarro estavam escondendo os danos que causavam, o governo tomou uma atitude. Quando descobrimos que os carros eram mais seguros com cintos de segurança, o governo tomou uma atitude. Eu imploro que vocês façam o mesmo aqui”, disse em determinado momento de seu depoimento. Frances destacou, ainda, que os executivos do Facebook costumam optar pelo lucro em detrimento da segurança dos usuários. 

As colocações de Frances, tanto no programa da CBS quanto no depoimento ao Senado, foram ataques diretos à uma das principais empresas do mundo, que chegou a ser avaliada em US$ 1 trilhão em julho de 2021. Mas, afinal, quem é a mulher que teve coragem de enfrentar uma companhia tão poderosa?

Nascida em Iowa City, nos Estados Unidos, Frances é filha de dois professores e, durante a infância, participou de movimentos estudantis em função do ofício dos pais. Depois de acompanhar as primárias da eleição presidencial, criou um forte sentimento de orgulho pela democracia, entendendo muito cedo a importância da participação cívica. Por conta disso, sempre teve uma veia muito ligada ao social.

Na juventude, foi inúmeras vezes voluntária do festival Burning Man, um evento de experimento social colaborativo e de comunidade que promove a “desmercantilização” e o bem-estar do meio ambiente, seguindo o espírito dos hippies e a contracultura dos anos 1960. Criada num lar de professores, não foi apenas a consciência social que foi estimulada desde a infância. O gosto pelo conhecimento e pelo estudo também esteve presente durante seu desenvolvimento. 

Formada em engenharia elétrica e engenharia da computação pelo Olin College, a norte-americana também tem um MBA concluído em Harvard. Em seu blog pessoal, apresenta-se como especialista em gestão algorítmica de produtos, tendo trabalhado por cerca de 15 anos com algoritmos de classificação em empresas como Google, Pinterest, Yelp e, finalmente, na companhia de Mark Zuckerberg.

Em 2019, passou a colaborar com o Facebook como gestora de produto líder da equipe Civic Misinformation, que lidava com questões relacionadas à democracia e desinformação – o que parecia perfeito levando em conta o seu histórico de participação cívica. Mais tarde, no entanto, ingressou em uma frente “contra a espionagem”. Foi aí que os primeiros incômodos com as escolhas do Facebook surgiram. 

Antes de pedir demissão, em maio deste ano, Frances fez cópia de uma série de memorandos e documentos internos, compartilhados com o “Wall Street Journal” e divulgados para o mundo inteiro. Entre as revelações, estão documentos que mostram que celebridades, políticos e usuários de grande visibilidade eram tratados de forma diferente pela empresa. De acordo com os dados vazados, as políticas de moderação eram aplicadas de maneira distinta, ou nem sequer eram aplicadas, no caso dessas contas. 

Mas o que mais preocupou a engenheira foi uma pesquisa interna que mostrou que o Instagram, que pertence ao Facebook, estava impactando negativamente a saúde mental dos jovens. Segundo os slides da apresentação publicados pelo jornal norte-americano, 32% das adolescentes entrevistadas disseram que quando se sentiam mal com seus corpos, o Instagram as fazia se sentir pior – um resultado que a companhia escondeu da população e Frances não conseguia aceitar. 

Quando deixou a empresa com o computador cheio de informações confidenciais, Frances chegou a entrar em contato com uma ONG especializada em vazamento de dados, numa busca para se sentir mais segura sobre o que estava prestes a fazer. Em seu Twitter, ela justifica sua decisão da seguinte forma: “Não odeio o Facebook. Amo e quero salvá-lo”.

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