Garotas também vão pra Califórnia! Conheça três mulheres que viajam o Brasil e o mundo sozinhas

Luana Solomon, Marcia Reis e Josefa Feitosa contam suas alegrias, os perrengues e como se organizaram financeiramente para viver na estrada
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Talvez esse seja o sonho de muita gente, afinal, quem nunca pensou em largar tudo, colocar a mochila nas costas e correr o mundo? Apesar de parecer enredo de filme – e realmente é, basta assistir “Comer, Rezar, Amar” -, essa história também pode ser um conto de fadas da vida real. 

Luana Solomon, dona de uma bem-sucedida carreira em instituições financeiras, largou a estabilidade para viajar com os amigos de quatro patas. “Eu não queria simplesmente parar de trabalhar, precisava de um propósito. Então, nas minhas reflexões, cheguei à conclusão que viajar seria uma excelente forma de mergulhar nesse autoconhecimento que eu procurava”, conta. 

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Já Marcia Reis e Josefa Feitosa se programaram, principalmente financeiramente, para aproveitar a aposentadoria na estrada. A carioca Marcia colocou o pé na estrada para fugir de uma depressão, enquanto Josefa decidiu viajar após uma vida dedicada ao sistema carcerário cearense. 

“Eu percebi que não preciso mais de uma casa. Não quero cama, não quero eletrodomésticos, não quero boletos pra pagar conta de luz ou de água”, diz Josefa, que aos 62 anos, já visitou 48 países – e continua contando. 

Conheça, a seguir, os perrengues e as alegrias dessas três mulheres que exploram o Brasil e o mundo sozinhas:

Luana Solomon

Luana e seus peludos Chai e Gregor (Foto: Arquivo Pessoal)

“As viagens que eu fiz durante a minha vida sempre foram muito superficiais”, conta Luana Solomon. Após 16 anos dedicados às instituições financeiras, a advogada começou, em 2018, a se planejar financeiramente para pedir demissão dois anos mais tarde e sair viajando em seguida. 

“Na época, eu estava namorando, mas ele não me acompanharia na viagem e eu sempre tive a vontade de seguir esse sonho sozinha. Eu entendia que esse mergulho, mesmo que mais desafiador, seria melhor se eu fizesse sem companhia”, conta.

É claro que, assim como o mundo inteiro, ela não esperava pedir demissão meses antes de uma pandemia de proporções arrasadoras. “A ideia era sair do banco em abril, mas fui adiando porque comecei a me questionar. Sair daquele emprego já era uma decisão muito difícil, ainda mais no meio de uma crise sanitária”, relembra. “Sempre fui acostumada a trabalhar com garantias, afinal, sou advogada do mercado financeiro. Trabalhava em banco apontando riscos e vivia num mundo muito controlado. Sair para viajar era algo totalmente fora da minha zona de conforto.”

Ainda assim, outubro de 2020 foi seu limite: Luana decidiu sair do trabalho de vez. Com o isolamento social, a viajante abandonou os planos de um mochilão pela Ásia e focou em viagens pelo Brasil, com o mínimo de interação possível. 

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“Fiz uma expedição na Amazônia em uma espécie de barco-enfermaria, que ia até as comunidades ribeirinhas prestar ajuda. Como não sou enfermeira, eu era uma espécie de faz tudo”, lembra. Depois, em outra expedição, dessa vez pela Chapada Diamantina, Luana percebeu que era esse tipo de mergulho profundo que ela queria vivenciar em suas viagens. Mesmo assim, ainda faltava alguma coisa. 

“Foi nesse barco pela Amazônia que eu conheci um casal que viaja de motorhome. Aí me veio um estalo: viajando assim, eu poderia até levar meus cachorros. E seria ideal, principalmente na pandemia, porque estaria isolada na minha casinha e ainda conseguiria acessar muitos lugares”, conta.

Após alguns testes pelas redondezas de São Paulo, Luana arrumou sua mala – ou melhor, sua casa -, pegou os cachorros Chai e Gregor e se mudou para o motorhome. “Uma grande vantagem de estar viajando com seu carro e sua casa é que não ficamos presos ao óbvio, acabamos explorando lugares que nem sabíamos que existiam”, conta.

Mas uma mulher dirigindo esse tipo de veículo, e ainda viajando sozinha, pode causar uma certa estranheza. “A gente vive em uma sociedade na qual, de certa forma, passamos por algumas restrições que são enraizadas. Mas sigo em frente, sem refletir sobre isso.”

Luana Solomon e seu motorhome (Foto: Arquivo Pessoal)

Ao chegar aos campings e conversar com os vizinhos, Luana percebe que há um preconceito, ainda que velado. “Isso está muito implícito nos comentários. As pessoas ficam indignadas que eu sou uma mulher viajando sozinha, e acho que não ficariam tanto se fosse um homem nas mesmas condições”, explica.

Mas as dificuldades não começam ou terminam por aí. Mesmo não entendendo nada de mecânica, Luana decidiu encarar o desafio de viver em um motorhome. “Uma vez, enquanto estava viajando, uma luz apareceu no meu painel e o carro começou a perder força, até o momento em que eu percebi que estava a 10 km/h. O que eu fiz? Encostei o carro e chorei”, relembra. O episódio fez com que ela se desse conta de que boa parte dos homens mexem com mecânica como se fosse uma brincadeira. “Eles sempre aprenderam a entender essas coisas, e eu não.”

E não são apenas perrengues mecânicos que surgem pelo caminho. Por isso, Luana sempre toma um cuidado extra quando está na estrada, como optar por estacionar em campings. “Muitos casais que viajam de motorhome dormem em posto de gasolina, mas eu não tenho coragem. Todo mundo diz que é super seguro, que quanto mais caminhoneiro no lugar, melhor. Mas eu não me sinto segura, tenho muito receio. Talvez se eu fosse um homem, não pensaria nessas coisas”, conta.

Mesmo assim, levando consigo uma casa e dois amigos de quatro patas – que por si só, já dão um trabalhão -, Luana não deixa que as dificuldades a parem. Na verdade, ela faz disso um motor. 

“Eu vejo muitos casais, geralmente aposentados, e alguns jovens viajando de motorhome. Mulheres sozinhas, no entanto, eu encontro muito pouco. Até em camping me dizem que é difícil vê-las. Por isso, acho que posso inspirar muitas delas a darem o primeiro passo – no que quer que seja. Não precisa largar o mundo corporativo e ir viajar de motorhome, basta querer sair da zona de conforto como eu fiz”, finaliza.

Marcia Reis

Marcia em passeio em Alter do Chão (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi quando a última filha bateu as asas e se mudou de casa que Marcia Reis percebeu que a solidão da rotina não seria tão boa quanto tinha imaginado. Sem as mesmas tarefas e responsabilidades, ela sofreu com a síndrome do ninho vazio e a depressão tomou conta do dia a dia. “A única coisa que eu pensava é que eu queria fugir, não sabia para onde, nem do que. Acho que eu queria fugir de mim mesma, mas já que não era possível, queria ir para algum lugar”, conta.

Com a vontade de viajar martelando na cabeça, Marcia fez o que ela acha que muitas mulheres na sua idade fazem: procurou uma agência de viagens. “Aí fiquei ainda mais deprimida, já que percebi que não era possível. Viajar uma semana e ficar um ano pagando a viagem não rolava para mim.” Por isso, mesmo sendo uma analfabeta digital – como ela mesma se classifica -, Marcia se apossou de seu celular e começou a pesquisar e ler sobre maneiras de viajar de forma econômica. 

Apesar de achar várias dicas na web, ela se deparou com outros problemas. “Todos essas pessoas eram jovens. Eu não via ninguém da minha idade fazendo viagens dessa forma”, conta. Mesmo assim não desistiu, e, ao ler histórias de pessoas mais jovens, descobriu hostels e foi desmistificando a ideia de mochileiro. “Pra mim era alguém vagabundo, um pedinte. Mas vi que era possível levar esse estilo de vida, então comecei a me planejar.”

Foi então que Marcia colocou a mão na massa e começou a fazer contas. “Na época, eu fiz uma estimativa de que precisaria de quase 50% da minha aposentadoria disponível para viajar, o que dava em torno de R$ 1.000”, explica. Então, depois de liquidar a fatura do cartão de crédito e todas as parcelas feitas em lojas de departamentos, Marcia fez sua primeira viagem, em  setembro de 2018. O destino nem era tão longe: de Resende para a Região dos Lagos. 

Marcia em São Luís do Maranhão (Foto: Arquivo Pessoal)

“Foi uma experiência tão forte e maravilhosa que eu acabei estendendo: dos três dias previstos, acabei ficando uma semana. E voltei já pensando na próxima”, conta. Foi na sua parada seguinte, em Curitiba, que Marcia deu o pontapé para se tornar a Coroa Mochileira – como é conhecida no Instagram. Foi na capital paranaense que ela comprou a sua primeira mochila.

Marcia logo já foi aumentando a duração das viagens. De sete dias passou para 30, depois 40 e, na última, ficou fora por quatro meses. “Sempre opto pelo mais barato. Também faço pesquisas antes de chegar às cidades.”

Entre caronas e hostels, as maneiras mais baratas de se locomover e hospedar, a Coroa Mochileira também descobriu uma estratégia que faz toda a diferença no orçamento – e na experiência. “Já fiz 13 voluntariados. E isso não é algo que ajuda apenas na economia financeira, mas nos ensina sobre humildade, resiliência e a lidar e respeitar o espaço do outro. Nos prepara para conviver com pessoas muito diferentes. Por ser mais velha, eu acabei olhando a juventude com outros olhos”, explica.

Mas, quando se trata de uma viagem sozinha, todo cuidado é pouco. Quando chega no destino, Marcia vai direto para o lugar da hospedagem e já sai colhendo o máximo de informações que consegue: “Acho que por isso eu nunca fiquei com medo em nenhum lugar. Sempre procuro não chegar à noite e fazer amizades para ter companhia na cidade”, explica. 

Mesmo assim, seus companheiros de viagem são, na grande maioria, mais novos, o que não a incomoda. Na verdade, sempre é muito bem recepcionada por onde passa. “Eu encontro pessoas de, no máximo, 35 anos. Nos hostels, o pessoal é mais novo, mas a galera sempre me inclui, me respeita, e não me vê como uma pessoa de quase 60 anos”, conta.

Com a pandemia, as viagens tiveram que ficar em segundo plano. Mas, ficando em casa grande parte do tempo, ainda mais isolada do mundo exterior, Marcia sentiu que a depressão estava voltando a assombrá-la. Assim, a vontade desesperada de colocar o pé na estrada voltou, mas as filhas a alertaram sobre o vírus. “Elas diziam que eu podia morrer se saísse de casa. Eu dizia que preferia morrer viajando do que morrer em casa, porque lá eu estava morrendo aos poucos.”

Josefa Feitosa

Josefa nas pirâmides egípcias (Foto: Arquivo Pessoal)

Josefa passou quase 35 anos da sua vida trabalhando como assistente social no sistema carcerário do Ceará. Desde 2008, ela se programava financeiramente para uma viagem – que aconteceria dez anos depois. Antes de começar a viajar, ela acreditava que precisaria de muito dinheiro para rodar o mundo. “Já tinha feito algumas viagens internacionais e nacionais, mas sempre comprando pacotes. Nunca fazia o meu próprio roteiro, por isso achei que ia precisar de um volume muito maior de recursos financeiros”, explica.

Mas os planos de se aposentar e sair viajando em 2018 foram adiantados após uma rebelião no presídio onde trabalhava. “Eu recebi muitas ameaças e fiquei com medo de continuar em Fortaleza. Não tinha mais condições, nem físicas, nem mentais, de seguir trabalhando e pedi a aposentadoria em 2016.” 

Josefa iniciou então, naquele mesmo ano, uma caminhada longa que até hoje não teve fim. Começou pelo Brasil. Em seguida, definiu seu primeiro destino internacional: Portugal. “Eu sempre pensava em viajar para o exterior, mas ficava com medo. Meu filhos também me alertavam, por ser uma mulher preta, de idade e que não sabe nenhum outro idioma.” 

Mesmo assim ela embarcou e, chegando em terras lusitanas, reencontrou-se com alguns de seus ex-alunos da Universidade Estadual do Ceará. Foi, por meio deles, que ela explorou a região e chegou até à Espanha. 

Boa parte das portas foram abertas por um documentário feito na prisão. “Eu trabalhava muito próxima à comunidade trans e, por causa das ameaças, criamos um espaço para acolher essas mulheres.Uma amiga documentou isso e eu saí divulgando”, conta. 

Apesar da situação ter facilitado as viagens pela Europa, Josefa decidiu parar após um tempo. “Eu falava muito sobre a justiça brasileira, e ir para um lugar onde você não domina o idioma é arriscado, fiquei com medo de dar problema”, conta. Depois disso, decidiu rodar o velho continente por conta própria – e foi aí que se deparou com as dificuldades.

Josefa no Coliseu, na Itália (Foto: Arquivo Pessoal)

“No começo, eu não conseguia me comunicar direito, acabava me perdendo e ficava desesperada, chorava muito. Mas, com o tempo, comecei a perceber que eu sempre dava um jeito.” Mesmo assim, por causa das adversidades com a comunicação, Josefa decidiu ir para a Irlanda estudar inglês. Por lá, ela arrumou trabalhos e o dinheiro extra a deixou mais confortável financeiramente. 

Após um ano e dois meses na Europa, Josefa voltou ao Brasil. “Foi então que percebi que não precisava da minha casa. Na verdade, passei a perceber que não precisava de muitas coisas. Eu já não tinha mais mala, usava mochilas, e comecei a optar por uma vida mais minimalista. Então vendi tudo, aluguei a casa e fui para a África, onde passei sete meses rodando o continente”, relembra.

No Quênia, Josefa passou por maus bocados, apesar de ter consciência de que estava apenas no lugar errado, na hora errada. “Antes eu não conseguia nem falar disso, mas hoje já não me dá tanta tristeza. Eu fui detida por uma noite porque fui confundida com um refugiado”, lembra. E, para alguém que queria esquecer o lugar onde trabalhou uma vida toda, nada pior do que passar a noite em uma cela.

Mas, além do Quênia, Josefa visitou diversos países africanos, todos eles se sustentando com o dinheiro da aposentadoria – e é com ele que se mantém até hoje. “Fiz uma planilha e coloquei uma meta de gastar, na época, US$ 20 por dia. Fui me organizando para que eu não precisasse trabalhar, e o voluntariado me ajudou muito nisso também”, explica.

Depois do continente africano, ela foi para Ásia e, posteriormente, começou um mochilão na América Latina, interrompido pela pandemia. “Mas eu continuei viajando pelo Brasil, já que não tenho casa. E eu gosto disso, já que não quero mais boletos de água e luz. Pra mim, a vida é fácil hoje. E eu digo hoje porque estou com 62 anos”, conta. 

E ela nem pensa em parar. Na verdade, em 2022 voltou a se aventurar pela América Latina. E foi viajando por 48 países – e contando – com o mínimo possível que Josefa encontrou o seu estilo de vida. E aprendeu a respeitar as culturas que, muitas vezes, representavam um tabu para ela. Agora, dividir o quarto com desconhecidos ou ver alguém fumando maconha ao seu lado é normal, afinal, em muitas países que frequentou, a planta é legalizada

Mas, para além disso, ela escolhe o lugar que quer morar, com quem quer morar e se sente livre. “Acho que minha vida é compacta, mas tenho tudo o que eu preciso. Eu ganhei muitas coisas nessas viagens. Minha cabeça nunca mais será a mesma”, conta. “Eu tenho uma vida mais despretensiosa, mais minimalista. Quanto menos eu tenho, mais rica eu me sinto. Para mim, liberdade é se desprender de todas as amarras, e sinto que alcancei isso.”

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