Viviane Ferreira: superação e autodescoberta até o sucesso

Ela transcendeu os limites impostos pela infância pobre na periferia do Rio de Janeiro e venceu
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Viviane Ferreira, sócia e cofundadora da startup Tiba: “Acho que cheguei até aqui hoje porque sempre tive a humildade de dizer ‘Não sei, me ajuda, me ensina que eu quero aprender’ (Foto: Divulgação)

Viviane Ferreira, nascida em São João de Meriti e criada em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, é daquelas pessoas que agarram com toda a vontade do mundo as oportunidades que a vida dá para sair da pobreza. E ela conseguiu!

Estudou muito com a estrutura que era disponível nas escolas públicas da periferia do Rio de Janeiro. Desde a primeira empresa onde trabalhou, demonstrou empatia e espírito de liderança, além de facilidade em aumentar a rede de contatos.

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Juntos, estes dons naturais de Viviane chamados no mundo corporativo de softskills foram os responsáveis por ajudá-la a superar todas as dificuldades.

Mesmo sem faculdade, Viviane conquistou cargos de gerência. Como? Além de talento, ela foi autodidata e devorou livros sobre gestão.

Hoje, ela é cofundadora e sócia da startup Tiba, de gestão empresarial.

Acompanhe os melhores momentos desta história inspiradora e envolvente que serve de lição para muita gente que reclama da vida e não vê as oportunidades ao redor.

Elas Que Lucrem: Viviane, qual sua origem?

Viviane Ferreira: No meu documento está São João de Meriti, mas toda minha infância e adolescência foi em Belford Roxo. Meus pais moram lá até hoje. Eu sempre estudei em colégio público desde pequenininha. Um tempo atrás eu conversei com uma professora minha e ela disse que sempre soube que eu era diferente de muitos alunos. É curioso porque eu sempre tive vontade de fazer algo diferente daquilo. A maioria das meninas que viveu da mesma forma que eu acaba engravidando cedo, acaba virando esposa de traficante e coisas desse tipo. E a minha mãe foi uma base muito forte na minha vida porque sempre falou para mim e para minhas irmãs – somos em três, aliás, quatro com um falecido que perdemos para o tráfico – “Pra gente, tudo é mais difícil. Você tem que se acostumar com isso. A gente precisa sempre estar à frente. Então, você estuda ”. Mesmo sem ter tido formação nenhuma, minha mãe sempre priorizou isso.

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Eu sempre fui bem no colégio e me destaquei. E, aos poucos na minha adolescência, busquei ter o meu dinheiro porque, quando você fala de uma família negra e pobre, os filhos crescem para ajudar na renda. E o meu irmão, que era o mais velho, ajudava na renda. Trabalhou no Bob’s desde os 12 anos para ajudar a gente a se vestir, a calçar e para ajudar minha mãe na alimentação. Minha mãe sempre foi empregada doméstica. Eu venho de uma família de empregadas domésticas. Minhas tias até hoje são empregadas domésticas. E minha mãe sempre falou que a gente tinha que fazer algo diferente disso e nada como a educação para ajudar a gente a sair desse cenário.

Viviane com a família: “Minha mãe sempre falou para mim e minhas irmãs – somos em três, aliás, quatro com um falecido que perdemos para o tráfico – ‘Pra gente, tudo é mais difícil. Você tem que se acostumar com isso. A gente precisa sempre estar à frente. Então, você estuda’ (Foto: Arquivo Pessoal)

Tive que conseguir dinheiro para entrar na faculdade particular em 2009. Eu ia toda feliz. Pegava trem, ônibus, milhões de transportes para poder chegar saindo do trabalho. Mas eu não me formei, não terminei a faculdade de Comunicação Social – Publicidade. Fui até o sexto período e abandonei porque chegou o momento da minha vida em que eu precisei cuidar da minha mãe com a grana da faculdade porque ela estava doente. Só agora, hoje, eu estou estudando RH que foi algo em que eu me descobri. Então, depois de começar a trabalhar muito cedo, fui aprendendo tudo fazendo. Acho que cheguei até aqui hoje porque sempre tive a humildade de dizer: “Não sei, me ajuda, me ensina que eu quero aprender”. Também tive pessoas ótimas no meu caminho porque ninguém consegue nada sozinho. Isso foi fundamental para o meu crescimento profissional e pessoal.

EQL: Você trabalhou em diferentes setores como venda de ingressos, por exemplo. Para a sua ascensão nesses lugares, qual era a sua estratégia? Você contou que houve dificuldade na busca por formação. Como conseguiu superar isso no ambiente de trabalho?

VF: Eu tive a sorte de pegar empresas no início. Então, eu conseguia me mostrar. Eu não tinha uma estratégia. Eu fazia com o coração. Pelo fato de ter paixão pelas coisas que eu faço e sempre gostar de descobrir coisas. Eu tenho um espírito desbravador de ir atrás e construir. E isso me ajudou muito. Comecei como vendedora de ingressos de uma empresa de ticket no shopping. Em 2008, não tinha cartão de crédito e os meios de pagamento de hoje em dia. As pessoas pagavam muito em dinheiro. Tinha muito dinheiro. Tinha evento que vendia R$ 100 mil. Era muito dinheiro envolvido. Eu comecei a me destacar porque tinha muita responsabilidade com aquilo e muito medo de acontecer alguma coisa com aquela grana que ficava em uma loja do shopping. Eu comecei a ir muito mais cedo para conseguir entregar o malote ao carro forte e assumi algumas responsabilidades relacionadas a dinheiro. Com dois meses, me chamaram para trabalhar no escritório porque ganharam confiança. Lá, eu fazia atendimento das lojas em um sistema digital, mas ainda sem os meios de pagamento. Virei supervisora e, depois, gerente de atendimento.

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Eu não tinha noção sobre gerenciar pessoas, mas as coisas foram acontecendo. E eu comecei a ler sobre isso. Na livraria do próprio shopping, comprei um monte de livros sobre gestão de pessoas. Eu tinha um time super júnior e precisava fazer aquela galera se motivar porque todos eles ganhavam pouco. Um dia, o dono me perguntou como a minha equipe com o menor salário era, ao mesmo tempo, a mais motivada. A equipe tinha 10 pessoas. Eu não tinha ideia do que estava fazendo. Mas o dono viu que eu tinha talento de liderança muito forte e as pessoas gostavam da forma como eu trabalhava. Foi tudo assim: eu lendo sobre e desenvolvendo, aprendendo na prática, além da oportunidade que as pessoas me deram. Existem milhões de meninas de Belford Roxo que têm exatamente o que eu tenho, mas não têm a oportunidade de encontrar pessoas no caminho que deem a chance de elas se desenvolverem.

Aplicando um treinamento: “Comecei a treinar as pessoas com tanta paixão e elas se encantavam. Foi quando comecei a me descobrir em RH” (Foto: Arquivo Pessoal)

EQL: Durante todo esse processo, você foi descobrindo esse talento com gente, a lidar com humores de pessoas e necessidades da empresa em atingir metas. Como foi esse processo de autodescoberta?

VF: Depois da ticketeira, eu fui para uma outra empresa do mesmo grupo para implantar toda a área de atendimento ao cliente. Quando cheguei, foi estruturar uma área, mas eu queria entender de tudo. Eu tenho esse perfil. Quando comecei a entender de tudo, comecei a pegar muitas atribuições pra mim. Houve a necessidade de contratar e treinar muitas pessoas para uma plataforma totalmente nova. O sistema era novo, o negócio era novo. Comecei a treinar as pessoas com tanta paixão e elas se encantavam. Foi quando comecei a me descobrir em RH. Alguém me pediu para recrutar também e era para tecnologia. Aprendi a contratar para tecnologia contratando 50 desenvolvedores. Vim para São Paulo fazer um curso e tive a certeza de que é disso que eu gosto. Era tão genuíno que acontecia naturalmente, mas eu ainda não tinha me visto na área de RH, apesar de ter estruturado o setor nesta empresa.

EQL: Você passou um período longo em uma empresa de meios de pagamento antes de ser cofundadora de uma startup. O fato de ser mulher e negra, de alguma forma, levou você a alguma situação difícil? Algumas entrevistadas da EQL já disseram que nunca tiveram alguma questão em relação a isso. Queria saber de você.

VF: Curioso você dizer que algumas entrevistadas nunca passaram por isso. É uma questão delas nunca terem percebido. É igual racismo. Nem todas as pessoas negras entendem o que é ‘racializar’ as coisas. É uma construção. A sociedade preparou a nossa cabeça para achar que é tudo normal. Exatamente como o machismo. Mas, de um tempo para cá, é que eu venho percebendo coisas. É um processo de construção também. Se eu for contar sobre situações que eu já passei, a gente vai conversar aqui durante dias. Primeiro, por conta do meu fenótipo. A minha pele sempre vem primeiro. As pessoas negras sempre estão em posição que não são de liderança. Isso é um problema.

Em relação a ser mulher, a gente tem problema para ser ouvida. Quando a gente se posiciona de maneira mais firme, está estressada e de TPM. Dentro da área de RH, a gente tenta orientar. Às vezes, um fundador ou um diretor, alguém que vive e provoca o tempo inteiro isso com a equipe, a gente tenta mostrar. Tem muito trabalho do RH pra gente conseguir desconstruir essas pessoas e mostrar o outro lado. E a pessoa também tem que estar pronta para ouvir e receber. Porque nem todo mundo quer e acha que é mi mi mi. A dor do outro que não dói na gente é mi mi mi. 

Com o time de cofundadores da Tiba: “O que me fez brilhar os olhos foi o propósito de uma startup que vai ajudar o pequeno e médio varejo. Quando a gente ajuda o pequeno, ajuda o Brasil a crescer” (Foto: Divulgação)

EQL: Vamos falar de Tiba. Como tudo começou?

VF: Às vezes, a gente conhece pessoas na nossa vida e não tem noção de quanto de mudança na sua vida aquela pessoa vai fazer. Networking é fundamental. Quem me apresentou para os sócios Ramires e o Leandro foi um grande amigo meu, o Gustavo que eu conheci neste curso que eu contei que fiz, de educação corporativa. A gente começou a conversar. Os meninos estavam buscando mulheres para o time de fundadores. E são dois homens cisgêneros. Outro fato curioso é que o RH não costuma começar em uma empresa em um período tão embrionário como o da Tiba. A gente conversou bastante durante alguns meses. Foi quando eu aceitei vir. O que me fez brilhar os olhos foi o propósito de uma startup que vai ajudar o pequeno e médio varejo: um público super esquecido e com muitos obstáculos que o leva a desistir. Quando a gente ajuda o pequeno, ajuda o Brasil a crescer. A gente ajuda a gerar emprego e a economia do país. Diversidade e inclusão também são coisas das quais eu não abro mão. Eu quero construir uma empresa diversa, onde a gente consiga trazer as minorias e crescer dessa forma. Começamos em dezembro e, hoje, somos em 37 colaboradores.

Com o marido e enteadas: “Minha família fica no Rio e eu em São Paulo durante a semana. Foi uma mudança não só de trabalho, mas também de vida. A gente está se adaptando a esse novo cenário, mas eu já tinha um projeto de ter um bebê” (Foto: Arquivo Pessoal)

EQL: Quais são suas metas na empresa e na vida pessoal?

VF: Primeiro é fazer essa empresa virar um unicórnio. Depois, eu não falei, mas eu sou casada e tenho duas enteadas, duas filhas do coração. Minha família fica no Rio e eu em São Paulo durante a semana. Foi uma mudança não só de trabalho, mas também de vida. A gente está se adaptando a esse novo cenário, mas eu já tinha um projeto de ter um bebê. Só vou atrasar ele um pouquinho mas, daqui a dois anos, quando as coisas estiverem estabilizadas, é o meu projeto. Outro projeto é terminar a universidade e continuar estudando e me desenvolvendo dentro da área de gestão de pessoas.

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