Mães solo: uma solidão que vai além do nome

Por que é mais difícil para elas pensar em planejamento financeiro e futuro
JOB_03_REDES_SOCIAIS_EQL_AVATARES_QUADRADOS_PERFIL_v1-02

Um fato: a maternidade não é tarefa fácil. Mulheres que têm filhos sabem disso. Se considerarmos que muitas não contam com uma parceria no dia a dia da missão de criá-los e educá-los, quão mais difícil se torna?

Existem pesquisas que apontam o aumento das mães solo no país. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), elas são mais de 11 milhões de mulheres, sendo 61% negras. Um outro levantamento, feito por cartórios de registro civil, aponta que, nos quatro primeiros meses de 2022, 56.931 meninas e meninos receberam apenas o nome da mãe na certidão de nascimento. O número supera o mesmo período dos cinco anos anteriores e representa 6,6% do total de recém-nascidos no país.

Além da sobrecarga emocional, a tarefa de criar um filho sozinha também tem impacto econômico: 63% das casas lideradas por mulheres estão abaixo da linha da pobreza, segundo o IBGE. Colaboram para esse cenário o maior desemprego entre as mulheres (13,9% contra 9% dos homens), os menores salários recebidos por elas (em média, 20,5% a menos em comparação com os homens) e as possíveis restrições que ser mãe solo pode gerar no desenvolvimento profissional dessa mulher.

“As mães são as primeiras na linha de impacto e as últimas na saída. Todas as crises afetam a maternidade frontalmente e delas há que se vencer muita resistência para superar e sair. As mães não são “poupadas”da função de cuidadoras por nada.

LEIA MAIS:

Elas se mantêm contínuas, porque a economia do cuidado se segura nelas”, alerta Thaiz Leão, fundadora do Instituto Casa Mãe (https://www.atados.com.br/ong/instituto-casa-mae/), uma organização social de pesquisa e desenvolvimento de futuros sobre maternidades, infâncias e economia do cuidado.

Mãe solo x mãe solteira

O termo mãe solo representa um pouco melhor a realidade de mulheres que dão conta sozinhas dos filhos, porque a maternidade não é um estado civil, nem está presa a um modelo de família. É possível, por exemplo, ter um parceiro ou parceira, filhos desse relacionamento, sem necessariamente estar casada “no papel”. Ainda assim, essa mulher será uma mãe. Uma mulher também pode ser oficialmente casada e, na prática, exercer um papel de mãe solo, porque falta parceria nessa missão. Da mesma forma, há aquelas mulheres que terminam um relacionamento e, de repente, se veem sozinhas cuidando dos filhos e do sustento deles, porque o pai os abandonou, ou se limita a ser aquele “pai de fim de semana ou das férias”, mas, no dia a dia, toda a carga emocional e de trabalho está com a mãe. Há aquelas ainda que deixam de contar com a parceria do pai da criança a partir do momento que anunciam que estão grávidas.

Em agosto de 2022, a atriz Samara Felippo fez um desabafo a respeito da maternidade solo no Instagram. Até o mês seguinte, o assunto rendeu em vários veículos de imprensa. Samara é separada de Leandrinho, ex-jogador de basquete, que é o pai das duas filhas da atriz. Atualmente, ele mora nos Estados Unidos, enquanto Samara vive no Brasil com as meninas. Após a repercussão da postagem, ela disse o seguinte ao IG Gente: “Quando eu falo que eu sou mãe solo, eu sou mãe solo mesmo. A partir do momento que uma mulher tem quase 90% da responsabilidade emocional, física, da rotina, do dia a dia, dessas crianças, mesmo que ela seja casada e more com companheiro, ela é muito solo. Então, eu me separei, mas ele mora fora, então eu sou mãe solo, ele não tem como estar aqui”, explicou Samara na ocasião. 

Por esses e outros exemplos é possível perceber que não dá para associar o “ser mãe” a um relacionamento afetivo ou a um modelo único de família e, por isso, o termo “mãe solteira”, tão utilizado no passado, caiu em desuso.

“O termo mãe solo é uma afirmação para mim em vários sentidos. Vem no sentido de dor, de afirmar que a posição que eu ocupo socialmente enquanto mãe é de solidão, porque se espera da maternidade um desempenho. Para exercer o cuidado, que é uma função social básica para a gente continuar existindo, somos isoladas do mundo para cuidar. O outro sentido é de empoderamento, de pegar esse papel e entender que eu não vou exercer minha maternidade desse jeito. Maternidade não é sobre me resignar em fazer tudo sozinha, em ser a pessoa de referência, a pessoa que sempre fica, para terminar com um “botton” de guerreira”, afirma Thaiz Leão.

Guerreiras ou sobrecarregadas?

Miriam Spinola tem 21 anos, é empreendedora e atua como confeiteira chefe da sua própria marca de bolos e doces. Foi mãe aos 17 anos e sempre exerceu a maternidade solo. 

Nascida em Salvador, Miriam decidiu, há um ano, se mudar para o Rio de Janeiro. Deixou o filho Ravi temporariamente com a avó na cidade natal, trabalhou em restaurante e conseguiu juntar algum dinheiro para, em alguns meses, voltar para buscar o menino. Na volta, chegou a trabalhar fora, mas desistiu, porque não queria deixar Ravi com desconhecidos e eram apenas os dois na cidade do Rio.

Miriam começou a empreender na confeitaria, porque já havia feito um curso profissionalizante na área. Hoje é esse trabalho que vem dando o sustento da família, embora não seja fácil.

Pela história de Miriam, que ela conta também nas redes sociais, é possível perceber que desde muito jovem sempre foi trabalhadora. Mesmo assim, no meio de todo o esforço para cuidar de si e do filho, Miriam teme pelo futuro de Ravi, tanto emocionalmente, quanto financeiramente.

“Como o pai do Ravi é 100% ausente na vida dele, tenho medo de que isso cause algum trauma futuro! Tenho medo de ele se sentir rejeitado de alguma forma, ou de me culpar por isso, mas espero que ele não venha sentir nenhum desses sentimentos, que ele reconheça todo o meu esforço para criar ele e de tudo que eu tive que abrir mão para poder dar uma vida legal para ele! Conciliar o empreendedorismo com as obrigações como mãe e com a casa, já que trabalho na minha casa, não é tão fácil quanto aparenta ser”, reflete.

Mesmo para mães que não são autônomas, se manter estável profissionalmente é complicado. No ano de 2016, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) fez um levantamento sobre a relação entre licença-maternidade e desemprego. O estudo revelou que a taxa de mulheres empregadas cai após o período de proteção garantido pelo benefício. Depois de 24 meses, quase metade das mulheres que tiraram licença-maternidade seguia fora do mercado. A maior parte delas foi demitida sem justa causa. A formação também interfere nesse cenário: trabalhadoras com maior escolaridade apresentam queda de emprego de 35% no período de um ano após o início da licença, enquanto o índice foi de 51% entre mulheres com nível educacional mais baixo.

“O maior desafio é conseguir ter uma formação acadêmica, conseguir ter um emprego seguro, que te dê estabilidade para você crescer. Quais são as mulheres que estão lá ocupando cargos? As que não têm filhos, porque essa mulher não vai faltar, porque esse contratante não quer por nenhum motivo pensar que essa mulher não esteja disponível para ele. Então a gente precisa falar das políticas para as mulheres mães, do lugar onde essas mulheres têm que ter uma carga horária que as contemple enquanto profissionais e enquanto mães”, defende Danie Sampaio, mãe solo e doula que empreende socialmente por meio do Mãe na Roda, iniciativa que leva projetos e informação sobre maternidade, além de atendimento humanizado para mulheres mães de territórios periféricos em São Paulo.

O estudo da FGV também aponta que políticas que envolvem a expansão de creches e pré-escolas podem ajudar na manutenção das mães no mercado de trabalho, porque esses espaços vão integrar a chamada rede de apoio, tão importante para essas mulheres. Para as mães solo, então, é fundamental e pode vir de muitos lugares, envolvendo ou não a família. É assim que a designer e ilustradora Thaiz Leão faz para conciliar a coordenação do Instituto Casa Mãe, o projeto autoral a Mãe Solo (https://www.instagram.com/a_maesolo/ ) , estudo e os cuidados com a casa e com o filho de 8 anos.

“O único jeito que encontrei para me tornar profissionalmente possível é contando com a escola e uma rede de apoio com outras mães para compartilharmos e distribuirmos, com inteligência social materno-referenciada, o cuidado devido às nossas crias e a nós mesmas”, explica Thaiz.

Em falas como as de Miriam, Danie e Thaiz se evidenciam as cargas física e emocional das mães solo. O cansaço na jornada é inevitável e, mesmo fazendo tudo o que é possível para os filhos, as dúvidas e preocupações vêm. Também vêm elogios como “guerreira”, “forte” e “batalhadora” que dizem muito sobre o que essas mulheres enfrentam, mas também geram uma idealização que pode mascarar uma realidade dura.

“Quem é a mulher guerreira, que não a mulher mãe que não tem outra opção, a não ser levantar e buscar o sustento? São mulheres em constante vulnerabilização. Mulheres que não conseguem retomar seus estudos, que não têm saúde mental e, algumas delas, enfrentando agressões ou fugindo dos seus lugares de opressão. Então quem é a guerreira hoje? É essa mulher que não tem como abrir mão do que é ela”, conclui Danie Sampaio.

Finanças e futuro das mães solo

Se a maior parte das mães solo está em condição de pobreza, falar de finanças também é um ponto crítico para essas mulheres. Imagina dar conta de moradia, alimentação, saúde e educação, além de todo o suporte emocional, sem uma condição digna de vida? E, aquelas que ao menos conseguem manter a vida funcionando sem escassez, muito provavelmente se sobrecarregam e precisam estar sempre de olho na organização financeira.

“Quando se está em uma situação onde só você é a chave para garantir tudo que o é preciso e mínimo, com certeza o futuro e a vida financeira são preocupações, principalmente estando inseridas em uma economia de acesso a direitos viabilizada quase que exclusivamente por dinheiro. Não há como estar sozinha comprometida com a vida de outros e não se preocupar. E tenho que pontuar que, para a maior parte das mães, ‘futuro e vida financeira’ é ter comida para amanhã”, destaca Thaiz Leão. 

A fala de Thaiz representa o que a doula Danie Sampaio acompanha muito de perto nos territórios onde atua com o projeto Mãe na Roda. São mulheres mães que se encaixam naqueles 63% de lares liderados por mulheres e que estão abaixo da linha da pobreza.

Foto: Daine Sampaio

“No território em que eu estou, com a pandemia e a falta de emprego, cresceu uma nova favela. É moradia num terreno que estava disponível, não tem saneamento básico, luz, nem água encanada. Essa mulher precisa sobreviver com seus filhos. Ela está na linha da pobreza e não sei como falar de organização financeira sem um ensino continuado, espaço de convivência e cooperativas de economia circular. Não dá para falar sobre mulheres mães solo em situação de pobreza sem colocar o Estado, as políticas públicas voltadas para essa mulher e as organizações sociais para estarem presentes nesses espaços. As mulheres precisam de um lugar para construir vínculo, para viver outras histórias, fortalecer outras mães e não tem outra forma de fazer isso na periferia a não ser coletivamente”, alerta Danie.

E, mesmo fora desse contexto de grande vulnerabilidade, pensar em planejamento financeiro e de futuro a longo prazo ainda é um privilégio para poucas mães solo. Como empreendedora individual e ainda vivendo fora da cidade onde nasceu, longe da família, Miriam Spinola precisou se organizar bem financeiramente para garantir o sustento dela e de Ravi no Rio de Janeiro. Ela vem conseguindo, mas ainda não é suficiente para guardar dinheiro.

“Sendo a confeitaria a minha única fonte de renda, faço meu fluxo de caixa diário, do que entra e do que sai. Como qualquer outra empresa tem suas datas para pagar os funcionários, aqui eu também tenho minha data fixa para tirar meu salário, que, no caso, é por quinzena. Com base no que recebo, pago todas as despesas. Uma parte do valor da primeira quinzena tiro para repor as merendas do meu filho, as compra de casa e algumas contas com o que sobra. Com o valor da segunda quinzena, pago meu aluguel e guardo uma parte para o lazer com meu filho”, explica a jovem confeiteira.

Políticas para mães solo

Atualmente, dois projetos de lei que podem beneficiar mães solo estão em tramitação. O primeiro é o PL 2099/2020, que institui um auxílio permanente de R$1.200,00 mensais para mães solo que são provedoras da família. Ele foi aprovado pela Comissão dos Direitos da Mulher no ano de 2021, mas ainda passa por análise de outras comissões da Câmara dos Deputados.

Além do PL 2099/2020, tramita também o PL 3717/2021, conhecido como Lei dos Direitos da Mãe Solo. Ele foi aprovado pelo Senado em julho de 2022, mas foi encaminhada à Câmara dos Deputados para ser analisada. O projeto prevê que as mães solo tenham prioridade de atendimento em políticas sociais e econômicas, como cota mínima de contratação em empresas, prioridade em creches e pagamento em dobro de benefícios, considerando que em muitos casos elas acabam sendo as únicas responsáveis financeiras pelos filhos. Se for aprovada, a lei terá uma vigência de 20 anos, ou até que a taxa de pobreza em famílias chefiadas por mães solo seja reduzida para 20%.

Outros benefícios, como o salário-família e o Auxílio Brasil podem ser aplicados às mães solo, mas não são exclusivos a elas. Vão depender da renda mensal, mas também não são suficientes para tirar uma família da linha da pobreza. É por isso que projetos sociais como os de Thaiz Leão e Danie Sampaio são importantes e ajudam a dar um pouco de suporte e acolhimento para essas mulheres, enquanto a nossa estrutura social segue sobrecarregando as mães e minimizando o abandono dos pais.

“Para que mulheres não se tornem mães solo contra a vontade, precisamos reimaginar o que chamamos de maternidade, redistribuir o cuidado e valorizar as crianças”, conclui Thaiz.

Fique por dentro de todas as novidades da EQL

Assine a EQL News e tenha acesso à newsletter da mulher independente emocional e financeiramente

Compartilhar a matéria:

×