Depois dos 40: mulheres relatam dificuldades para encontrar emprego

Etarismo e falta de apoio são alguns dos motivos que levam mulheres ao desemprego, informalidade e, até mesmo, empreendedorismo.
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A professora Fabiana Pignanelli lecionou por 30 anos em um colégio tradicional na cidade de Americana, interior de São Paulo. Em 2020, em meio à crise sanitária de Covid, foi mandada embora sem justificativa. Meses depois, soube que o cargo foi ocupado por uma profissional mais jovem.

Aos 49 anos, Fabiana é um reflexo de uma realidade no Brasil: de acordo do levantamento da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres são a maioria dos desempregados do país e menos da metade das que estão em idade de trabalhar está ocupada.

Embora a taxa de desemprego tenha recuado para 7,9% no último trimestre de 2022, atingindo a menor marca do ano, 54,4% dos desempregados eram de mulheres, contra 45,6% de homens.

A crise sanitária ocasionada pela Covid-19 contribuiu para agravar ainda mais o quadro, em especial para os mais velhos: 1,3 bilhão de idosos deixaram de trabalhar neste período segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

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As justificativas são várias e vão desde o já conhecido preconceito com as pessoas idosas, mas também incluem a qualificação dos mais jovens e a digitalização dos negócios.

Nesta faixa etária, o preconceito etário acomete, principalmente, as mulheres. Historicamente, elas são mais atingidas pelo desemprego que os homens, e na pandemia a situação piorou, já que muitas tiveram que deixar o mercado de trabalho para cuidar dos filhos com o fechamento de creches e escolas.

Maternidade também pode ser “freio de mão”

Um estudo realizado pela Sempreviva Organização Feminista, aponta que o nível de ocupação de mulheres de 25 a 49 anos que têm crianças com até 3 anos de idade vivendo no domicílio é de 54,6%, abaixo dos 67,2% daquelas que não têm. Para os homens, a situação é exatamente oposta: aqueles que vivem com crianças até 3 anos registram nível de ocupação de 89,2%, superior aos 83,4% dos que não têm filhos nessa idade.

”A maior carga emocional e de cuidados de uma criança recai sobre as mães, e os empregadores sabem disso. Na hora de contratar, acabam preferindo homens”, explica a consultora de RH Bruna Silva. 

Muitas mulheres preferem dar uma pausa em suas profissões para cuidar dos filhos, e, quando tentam reingressar no mercado, enfrentam dificuldades.

Sarita Ratz, 42 anos, é uma delas. A profissional atuou por anos em um escritório de contabilidade, mas quando o segundo filho nasceu, precisou sair para se dedicar às crianças. “Colocamos na ponta do lápis e vimos que o que eu ganhava não cobria os custos de colocar uma cuidadora, transporte escolar, almoço fora de casa, etc. Também teríamos que abrir mão de atividades extracurriculares tão importantes para as crianças, sem contar a terceirização, os cuidados e a educação”, conta.

Agora, com os filhos maiores, resolveu retomar a carreira. “O escritório que trabalhei me chamou de volta, mas sei que sou uma exceção. Conheço colegas que estão há anos sem conseguir recolocação”, explica.

Esta é a realidade de muitas, mas o cenário pode ser diferente. Um parceiro que divida as funções de igual para igual e uma rede de apoio são fundamentais para a mulher poder seguir com sua vida profissional. 

Empreendedorismo e informalidade

O empreendedorismo e o mercado informal acabam sendo uma alternativa para essas mulheres. No quarto trimestre de 2022, a taxa de informalidade, ou seja, soma dos trabalhadores sem carteira, empregador sem CNPJ, atingiu 38,6% no Brasil. Ainda de acordo com o IBGE, mulheres têm menores rendimentos e estão mais sujeitas à informalidade que os homens.

Fabiana conseguiu se aposentar, mas pensa em complementar a renda com um trabalho. “Após ter sido demitida, enviei alguns currículos e entrei em contato com algumas escolas, mas todas tinham reduzido o quadro de funcionários por conta do Covid. Depois da pandemia, também não fui chamada e resolvi estudar. Hoje estou me aprofundando no ramo de literatura infantil. Fiz um curso em uma empresa que faz curadoria de livros infantis. O curso foi gratuito, e nos tornamos mediadoras de leituras, sem vínculo empregatício e sem remuneração, por enquanto”, explica.

Bruna enfatiza a diferença entre empreendedorismo e informalidade. Empreender é algo idealizado, pensado, coordenado. Ele pode, sim, surgir de uma demissão, mas envolve planejamento e riscos. “Algumas vão vender bolos de pote, cosméticos, fazem cursos de estética, mudam de profissão para tentarem algo novo. A informalidade se torna parte da vida de muitas dessas mulheres”, conta a consultora.

Porém, essa informalidade pode acabar com a única reserva financeira que tinham. Maria de Lourdes Camargo, de 67 anos, separou-se do marido aos 50. Como cuidou das filhas a vida toda, nunca havia trabalhado, portanto não tinha direito à aposentadoria. Quando se viu sozinha e com contas a pagar, ofereceu serviços como cuidadora de crianças. “Fiz isso por 10 anos, mas depois dos 60, a energia para correr atrás dos pequenos acabou. De vez em quando, faço companhia para senhoras idosas, mas não é sempre que tenho demanda”. Com a escassez de dinheiro, acabou se endividando. “Além das contas para pagar, a idade traz a famosa conta da farmácia, estratosférica”, conta, rindo da situação. Após anos com advogado, conseguiu a aposentadoria, mas a dívida já estava grande.

Qualificação não é o problema

De acordo com os dados da segunda edição do estudo Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil, de 2019, “as menores remunerações e maiores dificuldades enfrentadas pelas mulheres no mercado de trabalho não podem ser atribuídas à educação. Pelo contrário, os dados disponíveis indicam que as mulheres brasileiras são, em média, mais instruídas que os homens”, registra a pesquisa.

Entre a população com 25 anos ou mais, 37,1% das mulheres não tinham instrução ou possuíam apenas fundamental incompleto. Entre os homens, esse percentual alcança 40,4%. Nas pessoas com nível superior completo, entre os homens o índice é 15,1%, e entre as mulheres, de 19,4%.

A paulistana Fernanda Patané, 44 anos, é formada em Administração, com ênfase em Comércio Exterior. Tentou reingressar no mercado de trabalho algumas vezes depois que o filho nasceu, mas sempre acabava desistindo. “Os horários ficavam insanos quando eu trabalhava, passava mais tempo no trânsito do que com meu filho”. Ela também tentou o mercado informal, vendendo roupas, mas todo mês era uma surpresa, alguns com lucro, outros com prejuízo. Recentemente, aceitou um emprego com uma menor qualificação, mas que permite que ela trabalhe de casa. “Pelo menos consigo ter uma independência financeira para fazer o básico sem perder a infância do meu filho.”

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