“Me vi naquela história”: surto psicótico relatado por Sandra Mara existe e atinge outras mulheres

Julgamento da sociedade assusta psicólogos, que se preocupam com a desinformação sobre assuntos da psique humana
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Sandra Mara e seu marido, Eduardo, abraçados para a foto
O laudo do Hospital Universitário de Brasília concluiu que Sandra estava em um quadro de transtorno afetivo bipolar em fase maníaca psicótica no momento do ocorrido (Foto: Divulgação)

Na tarde do dia 9 de março, em Planaltina, no Distrito Federal, Sandra Mara chamou o então morador de rua Givaldo Alves para entrar em seu carro. O homem havia acabado de lhe pedir dinheiro e estava manuseando uma das Bíblias que a missionária carregava. Quando se sentaram lado a lado, a mulher disse ter sentido “algo bom” ao ser tocada pelo mendigo, e combinou que o encontraria mais tarde na rodoviária da cidade. Quando se viram novamente, naquela noite, Sandra e Givaldo mantiveram relações sexuais no interior do veículo. 

O momento acabou sendo interrompido pelo marido de Sandra, Eduardo, que, ao se deparar com a cena, acreditou se tratar de um estupro. No entanto, o caso só foi esclarecido mais tarde, quando o casal afirmou que a mulher estava vivendo um surto psicótico. Com vídeos expostos na internet, a situação ganhou repercussão nacional – em boa parte, sob o tom de piada e julgamento sobre o caráter de Sandra.

“Eu me sinto profundamente dilacerada pelo ocorrido”, escreveu ela em suas redes sociais na última semana. Ao falar sobre o caso pela primeira vez, ela lamentou a exposição do episódio. “Fui usada como objeto de prazer durante delírios de alucinações que confundiram minha mente e me colocaram num contexto nojento e sórdido”, disse. Durante o ato sexual, a mulher afirmou ter visto o rosto do marido e de Jesus nas feições de Givaldo.

Apesar do esclarecimento – corroborado por um laudo do Hospital Universitário de Brasília que concluiu que Sandra estava em um quadro de transtorno afetivo bipolar em fase maníaca psicótica -, ela continuou sendo julgada como mentirosa e “pervertida”. Para muitos, tudo não passou de um fetiche sexual. 

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Basta prestar atenção aos poucos comentários de acolhimento à moça, no entanto, para encontrar relatos de pessoas que também vivem as dores e as consequências emocionais de um surto psicótico. 

Sandra não está sozinha

Quando ouviu falar do caso de Sandra Mara, Nicoly Cardoso não pôde deixar de se identificar. “Me vi naquela história”, diz. Diagnosticada com bipolaridade desde 2015, após o primeiro episódio de surto psicótico, ela chegou a manter relações com um desabrigado durante uma fase de descontrole, conforme relato concedido à Elas Que Lucrem.

“Tudo começou quando eu passei a ver um homem de olho azul no espelho, como se fosse eu. Na época, achei que se tratava de Jesus Cristo e que eu havia me transformado nele. Por causa disso, passei a acreditar que meu papel era salvar a vida das pessoas à minha volta, incluindo a dos vários moradores de rua que dormiam na região onde eu vivia, em São Paulo. Cheguei a prometer para um deles, que era cego, que eu o faria enxergar novamente. Em outros momentos, levava meus lençóis e cobertores para esquentá-los. Um dia, quando estava em crise, caminhei descalça pelas ruas até um desses homens me oferecer um chinelo. Como retribuição, dei meu notebook para ele. Não sei explicar o porquê”, conta. 

Episódios como esses foram se tornando cada vez mais comuns e intensos para Nicoly, configurando o estado de “mania”, fase de intensa euforia que costuma se manifestar em pacientes bipolares, causando delírio e agressividade. Nesse mesmo período, ela ainda lembra de dar o cartão de crédito para desconhecidos, o que a fez perder praticamente todo o dinheiro que tinha guardado. Como agravante, ela conta que a realidade se apresentava diante dela de maneira desconfigurada, como se “tudo, até os prédios, estivesse sempre em movimento”. 

“Em um desses dias, eu estava convencida a mudar a vida de um daqueles moradores de rua. Me senti atraída por um em especial e resolvi levá-lo para o hotel da frente. Quando chegamos, pedi para que ele tomasse vários banhos, até estar totalmente limpo. Ele tomou quatro, se eu bem me lembro. Mas, de repente, passei a olhar aquele homem de outra forma – fui ficando excitada. Ele, claro, não acreditava que aquilo estava acontecendo e questionava, mas sem perceber que era um surto. Eu perguntei se ele tinha alguma doença, peguei preservativos e nós transamos”, relata. 

O caso foi seguido por surpresa, arrependimento e outros delírios. Enquanto tenta descrever o surto, Nicoly conta que a sensação era a de que outra pessoa estaria usando seu corpo. A constatação, por sua vez, acabou fazendo com que ela acreditasse que estava sendo possuída por espíritos, problema que relatou para a psiquiatra quando decidiu buscar ajuda. “Depois disso, joguei tudo que era meu fora. Roupas, perfumes, itens pessoais. Na minha cabeça, era uma forma de espantar esses seres que insistiam em viver dentro de mim”, afirma. 

Depois desses acontecimentos, a curitibana passou por uma fase de depressão profunda, com duas internações em hospitais psiquiátricos. Apesar de não ter tido a mesma exposição que o caso de Sandra Mara, Nicoly lamenta as dificuldades para superar o que havia vivido. “Me arrependo de tudo que fiz, só o tempo vai me fazer esquecer”, diz. 

Elas não estão mentindo 

Ana Lucia Pandini, doutora em psicologia do desenvolvimento humano pela Universidade de São Paulo (USP) e professora e supervisora do curso de psicologia da Universidade Mackenzie, revela ter ficado “estarrecida” com a repercussão do caso de Sandra Mara. Para ela, o julgamento da sociedade sobre a imagem da mulher indica a força contínua de dois grandes tabus: a sexualidade feminina e as doenças mentais. 

“Essa projeção de uma sombra negativa sobre a mulher que está em surto é algo primitivo. O ato dela foi visto como uma perversão sexual, mas o que as pessoas parecem não entender é que a pessoa em surto não tem escolha e nem consciência sobre o que está fazendo”, explica. “A Sandra Mara, naquele surto, não sabia o que estava fazendo, mas, mesmo assim, a sociedade a julgou de forma cruel e desrespeitosa, assim como o senhor em situação de rua abusou de sua falta de consciência e decidiu começar a se exibir de maneira narcisista.” 

Após o ocorrido, Givaldo Alves – que não vive mais nas ruas – criou uma conta no Instagram e hoje já coleciona mais de 64 mil seguidores. No último mês, foi chamado para eventos e até camarotes em grandes festas do Carnaval. Já Sandra Mara, que se pronunciou pela primeira vez em suas redes sociais na última semana, foi “vítima de chacotas e humilhações em rede nacional” – como ela própria escreveu. 

Mesmo após o laudo do Hospital Universitário de Brasília, que concluiu que Sandra estava em um quadro de transtorno afetivo bipolar em fase maníaca psicótica no momento do ocorrido, muitos internautas continuaram duvidando de sua condição médica e zombando do caso. Para os desacreditados, Ana Lucia Pandini é categórica: “Sandra Mara é inocente. Ela não mentiu e não está enganando ninguém”. 

A psicóloga explica essa certeza com argumentos clínicos. “Os surtos psicóticos acontecem quando um material do inconsciente humano invade a consciência, fazendo com que a pessoa veja situações fantasiosas como se fossem realidade”, ressalta. “Quando sonhamos, interagimos com um material da nossa psique. Porém, quando acordamos, sabemos que aquilo era apenas um sonho. Em pessoas com estrutura psicótica, esse material da psique invade a consciência e faz com que elas não percebam mais o que é ou não realidade. É como se elas sonhassem acordadas.” 

De certa forma, é como se a mente fosse dominada por delírios – e não há nada que a pessoa possa fazer para diferenciar a realidade da imaginação. Não faz parte do livre arbítrio. “O surto domina o funcionamento do ‘eu’, então é muito possível sair de casa e ter atitudes perigosas em momentos de crise”, completa. 

Além dos surtos psicóticos, o laudo de Sandra Mara também cita a bipolaridade, o que pode gerar dúvida em muita gente – já que a condição não é tão rara nos tempos atuais. “A bipolaridade tem níveis de gravidade e não podemos esquecer disso. Não é todo mundo com bipolaridade que vai ter delírios e surtos, mas aqueles que possuem um caso com estrutura psicótica provavelmente sim. Cada caso é único, e por isso o acompanhamento médico é tão importante.” 

Assim como o apoio profissional, a informação sobre o assunto é essencial – neste caso, para a sociedade como um todo. “Muitas pessoas duvidam da Sandra, mas surtos psicóticos são reais. Somente quando a pessoa sai desse quadro, e isso pode demorar um tempo, é que ela pode recuperar a consciência”, explica a especialista.

Quando acorda do surto, a pessoa ainda tem de lidar com as consequências de seus atos – o que fica ainda pior num caso midiático como o de Sandra. “O impacto da desinformação na vida de quem lida com surtos psicóticos é devastador. As pessoas sofrem com esse olhar acusador e isso impede que elas possam ter uma vida mais ligada à sociedade. Deveríamos falar mais sobre o assunto, inclusive nas escolas, ensinando como a psique humana funciona. Da forma que aconteceu, parece que as pessoas simplesmente quiseram queimar essa mulher na fogueira, como na inquisição.” 

Ainda em seu relato nas redes sociais, Sandra agradeceu ao marido por saber que, em condições normais, ela jamais teria se permitido passar por aquilo. Além disso, disse que vai lutar pelo direito das mulheres, por mais que algumas não tenham saído em sua defesa. “Essa ferida que existe em mim vai se curar aos poucos”, completou.

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