Joga a bola no meu pé: a difícil trajetória das mulheres no futebol brasileiro

O esporte mais popular do mundo foi proibido no país entre 1941 e 1983
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Joga a bola no meu pé: a difícil trajetória das mulheres no futebol brasileiro
Manchete do jornal carioca O Imparcial (Foto: Acervo Fundação Biblioteca Nacional | Jornal O Imparcial)

No ônibus da seleção brasileira feminina de futebol, rumo a mais um jogo pela Copa do Mundo de 2019, Marta leva um cavaquinho. As jogadoras cantam em uníssono a música de Cacau Fernandes: “Qual é, qual é? Futebol não é pra mulher? Eu vou mostrar pra você, mané. Joga a bola no meu pé”

Para chegar até ali, as mulheres tiveram que percorrer um longo caminho. No Brasil, o esporte foi proibido de ser praticado por pessoas do gênero feminino durante mais de 35 anos. O decreto-lei sancionado por Getúlio Vargas, em 1941, dizia: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. Já nas manchetes dos jornais da época, as palavras não eram tão refinadas: “Pé de mulher não foi feito pra se meter em chuteiras!”.

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A população, a mídia, o governo, a polícia e até a medicina estavam de acordo: mulher não deveria praticar futebol – ou qualquer esporte que envolvesse muito contato físico. Mesmo assim, elas insistiram.

Futebol não é pra mulher

Muita coisa acontecia no cenário político e social daquele Brasil da década de 1940. A proibição de esportes para as mulheres foi acompanhada por um clima de muito descontentamento com o futebol masculino. Uma década antes, a seleção brasileira disputou a primeira Copa do Mundo e não obteve bons resultados. Por incrível que pareça, o país do futebol nem sempre foi o centro dos holofotes. Em 1934, o Brasil ainda tinha um time amador.

“A proibição do futebol para as mulheres se deu em meio a um contexto de profissionalismo do futebol masculino. Getúlio Vargas entendia que o esporte era uma forma de transformação e superação de diferentes posições políticas, o que para ele era interessante na época”, explica Dóris Régis, técnica em documentação do Museu do Futebol, localizado no Pacaembu, na capital paulista. 

“Vargas entendeu desde cedo que o futebol era uma ótima ferramenta para dialogar com os trabalhadores. Ele então ajudou na profissionalização do esporte masculino, pois acreditava que, como político, precisava dos atletas e da classe trabalhadora perto dele. Ele também percebeu que o esporte é a ferramenta ideal para aprimoramento racial e cultural, pegando como exemplo outros países que na época eram fascistas, como Itália e Alemanha”, comenta a especialista.

No cenário nacional e internacional, portanto, o clima era de totalitarismos nas décadas de 1930 e 1940. Por aqui, Vargas instituiu o Estado Novo em 1937. No mundo, Benito Mussolini assumiu o poder na Itália em 1922; António de Oliveira Salazar em Portugal, dez anos depois; Adolf Hitler na Alemanha, em 1934; e Francisco Franco na Espanha, em 1936. 

O que antecedeu a proibição do futebol feminino por aqui foi uma ideologia racista e nazista que se alastrava pelo mundo: a da superioridade racial e cultural. Isso acabou por influenciar, inclusive, a forma como a política e a medicina eram interpretadas na época. No Brasil, a proibição do futebol para as mulheres em 1941 foi justificada pela crença de que o esporte masculinizava o corpo feminino.

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Dóris lembra que, naqueles tempos, tanto a política quanto a medicina tinham uma relação muito forte com o exército. “Elas interferiam, inclusive, na relação das pessoas com seus corpos. O futebol feminino, de acordo com os pensamentos da época, dava um corpo masculinizado à mulher, que não era mais apto a gerar uma criança, que era o papel dela na sociedade.”

Joga a bola no meu pé: a difícil trajetória das mulheres no futebol brasileiro
Manchete do jornal carioca O Imparcial (Foto: Acervo Fundação Biblioteca Nacional | Jornal O Imparcial)

Por isso, a maioria da população foi favorável à proibição, influenciada também pela imprensa. “Os jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro publicavam várias reportagens criticando o futebol feminino, usando como justificativa essa questão do corpo”, conta Dóris. E esse comportamento ia muito além de algo regional. A mídia nacional também refletia sua indignação com a possibilidade de as mulheres praticarem o esporte, e faziam questão de expor isso em suas páginas.

Como dizia a manchete da década de 1940 do jornal “O Dia Esportivo”, o futebol era impróprio para as mulheres. Impróprio pois previa contato físico, mudava o corpo, ‘alterava o equilíbrio endocrinológico’. Essa crença se expandiu como um rastro de pólvora e culminou na proibição da prática de outras modalidades esportivas pelas mulheres.

“A proibição foi em 1941. Em 1965, o Conselho Nacional de Desportos definiu quais eram os esportes proibidos para as mulheres: lutas de qualquer natureza, futebol, inclusive de salão e de praia, pólo aquático, rugby, halterofilismo e beisebol. Em 1979, essa deliberação do Conselho Nacional de Desportos foi revogada, mas ainda não havia nenhum regulamento sobre o futebol feminino. Isso só ocorreu em 1983. Então, entre 1979 e 1983, não se sabia se mulheres podiam ou não jogar futebol”, explica Dóris.

Eu vou mostrar pra você, mané

Entre 1941 e 1983, a seleção masculina de futebol ganhou três títulos de Copa do Mundo:  1958, sediada na Suécia, 1962, realizada no Chile, e 1970, no México. Enquanto isso, as mulheres não tinham permissão para praticar o esporte, ou seja, o futebol feminino não existia oficialmente. 

“Para que as jogadoras não fossem punidas de alguma forma pela polícia ou pelas federações, elas atribuíam às partidas que realizavam um caráter beneficente ou de espetáculo. De alguma forma, elas tentavam burlar a proibição”, conta Dóris.

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Em 1959, o Pacaembu, onde Dóris trabalha atualmente, sediou uma disputa de futebol feminino – quase 20 anos depois de Paulo Machado de Carvalho, advogado e empresário que deu nome ao estádio, ter presenciado o duelo entre as equipes femininas Sport Club Brasileiro e Casino Realengo Futebol Clube. A partida ficou conhecida como “Jogo das Vedetes”. Naquele final da década de 1950, o empresário Lover Ibaixe patrocinou o primeiro jogo entre atrizes do teatro de revista, conhecidas como vedetes. O apito inicial só foi possível pois a partida tinha caráter beneficente: o objetivo do jogo era arrecadar fundos para a construção do Hospital dos Atores de São Paulo.

Joga a bola no meu pé: a difícil trajetória das mulheres no futebol brasileiro
Vista pontual do Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho (Foto: Werner Haberkorn | Acervo Museu Paulista | Domínio Público)

Apesar das tentativas de burlar a lei, são poucos os registros sobre o futebol feminino naquele período, já que muitas vezes as partidas “clandestinas” eram interrompidas. Dóris conta que isso aconteceu com dois times femininos de Minas Gerais. “Existem alguns registros de jornais e de fotografias do Araguari e do Vespasiano, que faziam alguns jogos até com torcida. A partir do momento que as partidas começaram a receber atenção de algumas federações e até da polícia, elas tiveram que ser interrompidas e as mulheres foram obrigadas a parar de jogar.”

Em 1982, parte do período em que a proibição era uma incógnita, Rose do Rio, uma grande militante dos direitos das mulheres e da prática do futebol feminino, participou de um evento que entrou para a história. “No último dia do Festival Nacional de Mulheres nas Artes, organizado pela atriz Ruth Escobar, estava previsto um jogo entre mulheres, numa espécie de seleção de São Paulo contra a seleção do Rio de Janeiro”, conta Dóris. 

O jogo aconteceria no estádio do Morumbi, antes do Majestoso masculino entre São Paulo e Corinthians (o Corinthians de Sócrates, diga-se de passagem). Dóris conta que, para que a partida acontecesse, foi preciso diminuir a duração para dois tempos de 20 minutos – e, mais uma vez, a partida só seria realizada a título de “espetáculo”. 

No dia marcado, as jogadoras receberam um telegrama proibindo a realização da partida. “Como ainda não havia uma regulamentação, na dúvida, a Federação Paulista decidiu proibir. O clima de indignação das atletas foi gigante. Até os jogadores do São Paulo e do Corinthians precisaram intervir. O Sócrates disse que se as mulheres não pudessem entrar no gramado, os homens não entrariam também. Então o jogo acabou acontecendo e foi um sucesso.”

Em meio a esse clima, o futebol feminino foi, finalmente, regulamentado no Brasil em 1983.

Joga a bola no meu pé

Embora o país vivesse uma crise econômica na década de 1980, existia um sentimento forte de esperança, afinal o Brasil estava saindo de uma ditadura militar. No mesmo ano da regulamentação do futebol feminino, começou o movimento pelas Diretas Já. E o cenário político acaba contaminando também os esportes. 

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“Nessa época, a gente via atletas falando muito sobre política. Era o momento ideal para jogadores de futebol se manifestarem. Sócrates e o Corinthians são grandes exemplos disso. Esse cenário acabou contribuindo muito para a democratização do futebol e a volta das atletas aos gramados”, explica Dóris.

Três anos depois, em 1986, a CBF convocou a primeira Seleção Brasileira de Futebol Feminino para um jogo, um amistoso contra os Estados Unidos com placar final favorável às norte-americanas por 2 x 1. Em 1991, 61 anos após a primeira Copa do Mundo masculina, as jogadoras de futebol de todo o mundo disputaram pela primeira vez o mundial.

Joga a bola no meu pé: a difícil trajetória das mulheres no futebol brasileiro
Seleção de Futebol Feminino de 1995 (Foto: Acervo Museu do Futebol | Coleção Leda Maria | Direitos Reservados)

Hoje, o futebol feminino brasileiro é competitivo, possui times profissionais, campeonatos regulamentados, é transmitido em canais de televisão, de streaming e até na internet. É possível fazer do futebol uma profissão, receber um salário, viver com a bola no pé. Mas, mesmo com tantos avanços, a proibição desse esporte para as mulheres possui os seus resquícios até hoje. 

Como alguém que trabalha com o esporte mais popular do mundo, Dóris entende que esse espaço não foi feito para elas, mas para eles. “Nós ficamos muitos anos de escanteio, seja como torcedoras, jogadoras, jornalistas esportivas, cronistas, árbitras… A gente ocupou esse espaço na marra, porque ele nos foi negado durante muitos anos. Por que as atletas da seleção feminina têm salários tão inferiores aos dos jogadores da seleção masculina? Por que os jogos não são exibidos e abordados da mesma forma?”, questiona. A resposta está na própria história. 

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