Como Luciana Mirihad conquistou milhões de inscritos no YouTube ensinando receitas com ingredientes da cesta básica

Acostumada a empreender com pouco desde a infância, hoje a influenciadora é embaixadora contra a fome no G10 Favelas
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Divulgação
Luciana Mirihad é dona do canal “Culinária em Casa” e embaixadora contra a fome no G10 Favelas (Foto: Divulgação)

Em João Dourado, município do interior da Bahia, Luciana Mirihad empreendeu pela primeira vez. Aos oito anos, passeando pela feira que ficava bem em frente à sua casa, ela ouviu a reclamação de uma feirante grávida: “Não tem banheiro aqui. Fica difícil trabalhar”. Na época, comendo apenas fubá com água por conta de dificuldades financeiras, a menina pensou que era possível fazer dinheiro com aquela situação. “Eu corri para casa e disse para minha mãe que tínhamos que alugar o nosso banheiro. Ela achou que eu estava doida”, lembra. 

Apesar de não ser levada a sério, Luciana não desistiu da ideia. “Fui no seu Zé, um boteco do lado de casa, e comprei fiado um pacote de papel higiênico e um desinfetante. Prometi que voltava no dia seguinte para pagar”, conta. Com os itens em mãos, limpou o banheiro que ficava no quintal de sua casa e deixou tudo pronto para o dia seguinte. Quando ouviu os primeiros sinais de vida na feira, às 5h, saiu de casa, escreveu “banheiro” em um papelão e pendurou com um prego no portão. Para não ficar dependente da atenção dos transeuntes em seu anúncio, foi até a barraca da feirante grávida e contou a novidade. Naquele dia, ela não precisaria se preocupar com a falta de banheiro. 

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A atitude da garota desencadeou uma das estratégias de marketing mais certeiras e antigas do mundo: o boca a boca. Um feirante contou para o outro e, de repente, Luciana estava atendendo uma fila de clientes que queriam utilizar o banheiro. “Coloquei uma cadeira na frente de casa e fiquei lá, controlando a entrada e fazendo a cobrança. O turno ia até às 14h, quando a feira terminava. Às vezes, saia do meu posto para conferir se estava tudo limpo ainda. Foi um dia de trabalho que me gerou uma sacolinha cheia de dinheiro”, lembra. Quando sua mãe ficou sabendo, sugeriu que usassem o valor para ir ao mercado comprar comida, mas Luciana tinha outros planos em mente. 

“Já tínhamos comido fubá com água por tantos meses, podíamos comer mais. Eu usei o dinheiro para pagar o seu Zé pelo fiado e disse pra minha mãe comprar os ingredientes necessários para fazer um bolo de banana.” No dia seguinte, além de cobrar pela entrada no banheiro, a família Mirihad estava vendendo bolo e café. “Não tinha nem fogão a gás nessa casa. Fazíamos com fogão a lenha mesmo. Era difícil, mas acho que isso deixava o sabor ainda mais especial.” Na época, Luciana enxergava sua atitude como um instinto de sobrevivência – hoje, chamamos de empreendedorismo. 

Naqueles tempos, Luciana tinha o sonho de ser apresentadora de televisão, mas ela jamais imaginaria que, 30 anos depois, seria dona de um canal no YouTube que ensina receitas com ingredientes de cesta básica. “Temos duas opções: ou gastamos o dinheiro que recebemos em cinco minutos ou fazemos algo para que esse valor renda. Pode ser um bolo de banana, como eu e minha mãe fizemos, ou uma receita de pão”, explica. 

É esse raciocínio que Luciana compartilha com os mais de 7 milhões de seguidores do seu canal, que nasceu em 2015 e foi batizado de “Culinária em Casa”. Essa é, provavelmente, a maior coincidência de sua vida. Mas tudo faz mais sentido quando se observa o extenso histórico profissional da influenciadora. 

A VIDA ANTES DO YOUTUBE 

Após a experiência de alugar o banheiro de casa, a jovem empreendedora passou por diversas outras experiências profissionais. Vendeu acarajé, limpou casas, cuidou de crianças e até de bodes. Aos 11 anos, tinha uma experiência diversa, que combinava com o estilo de vida nômade que levava na época, acompanhando a mãe numa jornada em busca de seu lugar no mundo. Luciana morou em São Paulo, na Bahia, em Maceió, em Brasília e, finalmente – mas não menos importante -, em Goiás, mais especificamente em Caldas Novas. 

Foi lá que a vida de Luciana se tornou um pouco mais estável. Ela conseguiu um emprego em uma das franquias do Café do Ponto no centro da cidade turística, onde ficou como atendente até os 18 anos, quando casou e teve o primeiro filho. Ao lado do músico, foi morar em São Paulo e parou de vez os estudos. “Estava me sentindo perdida, com uma criança pequena e sem saber o que fazer para gerar renda. Ao mesmo tempo, não queria deixar meu filho na creche. Queria ganhar dinheiro dentro de casa, vendo ele crescer”, recorda. 

Ao assistir ao programa de Ana Maria Braga em uma manhã qualquer, Luciana sentiu sua veia empreendedora renascer depois de um discurso de incentivo da apresentadora aos telespectadores sobre trabalho. “Eu sempre cozinhei muito bem, então comecei a fazer bolo e pão de mel para vender. Após alguns meses, também comecei a revender lingerie, fazer unha e cabelo. Foi assim até os 39 anos.” Já com três filhos grandes – o mais velho cursando direito -, Luciana conta que o vazio e a vontade de fazer algo maior ressurgiu mais uma vez. “Eu era feliz, mas faltava um legado.” 

Ao conversar com o primogênito, ele sugeriu que ela gravasse alguns vídeos cozinhando, assim a família inteira poderia ter acesso ao seu talento. “Eu podia deixar isso como lembrança para meus netos. A ideia me animou muito.” O filho, no entanto, foi além, e imaginou que aquele legado poderia ser maior do que um simples vídeo salvo no HD da família. Após gravar a receita de um bolo decorado da Frozen, Giovanni Júnior publicou o vídeo no YouTube. “Após uns oito meses, ele veio me contar que o vídeo estava com 1 milhão de visualizações e perguntou o que eu achava de levar isso como profissão. No dia 1 de novembro de 2015 virei apresentadora do meu próprio canal.” 

Sem muito conhecimento sobre as redes sociais, Luciana contou com os filhos nesse processo. Ela publicava um vídeo por dia e, em paralelo, continuava com seus trabalhos vendendo pães e fazendo unhas. Por mais que sua rotina fosse ativa, com muitos trabalhos, sua família passava por dificuldades financeiras, então ela não podia parar para sonhar com um futuro – até então – improvável. “Nessa época, ganhei uma cesta básica de uma cliente. Foi aí que eu entendi que precisava ajudar outras mulheres a empreenderem com pouco. Não precisamos de uma cozinha perfeita para começar. Muitas vezes, precisamos apenas de farinha e água”, ressalta. 

Mais do que bolos decorados, Luciana começou a fazer receitas com ingredientes da cesta básica, gerando uma exposição ainda maior de seu canal. O vídeo sobre pão caseiro, por exemplo, conta com 12 milhões de visualizações. “Não faço conteúdo com produtos que não estejam na cesta básica. Farinha e água rendem pão, pastel e massa de bomba de chocolate. Você pode fazer isso, vender e gerar renda para sua família”, diz ela, que cresceu seguindo sua lógica empreendedora da infância. No YouTube, conseguiu construir uma ponte de contato com outras mulheres que passam pelas mesmas dificuldades e precisam de inspiração e apoio. Em dois anos, essa base de inscritos fez com que o “Culinária em Casa” alcançasse o primeiro milhão de inscritos. 

O boom do canal fez com que, em 2017, a empreendedora pudesse se dedicar integralmente ao trabalho como youtuber. Além disso, contribuiu para que não precisasse mais da doação de cestas básicas – embora o tema seja sua principal matéria-prima para produzir conteúdo e ajudar as seguidoras. 

EMBAIXADORA CONTRA A FOME 

Em 2021, coerente com seu trabalho de incentivo ao empreendedorismo feminino, Luciana virou embaixadora contra a fome por meio do G10 Favelas. Com mais de meio bilhão de visualizações e 7 milhões de inscritos apenas na plataforma de vídeo, ela tem contato direto com a dificuldade das famílias brasileiras. A cesta básica nacional, que foi criada por meio de um decreto do governo de Getúlio Vargas em 1938, tem se tornado cada vez mais cara, principalmente com a crise econômica decorrente da pandemia de Covid-19.

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Para trabalhadores que ganham cerca de um salário mínimo – que hoje vale R$ 1.100 -, os itens da cesta básica (13 itens considerados essenciais para a alimentação adequada de uma pessoa adulta) correspondem a, aproximadamente, 55,68% da renda mensal, segundo um levantamento feito em julho pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). 

A pesquisa também mostrou que o brasileiro precisa trabalhar mais tempo para comprar os produtos básicos. Em julho de 2020, considerando uma jornada de oito horas por dia, o trabalhador levava 12 dias para comprar a cesta. Em julho deste ano, esse tempo subiu para 14 dias, quase metade de um mês só para comprar o básico da alimentação. Para Luciana, seu propósito como youtuber ganha uma força ainda maior quando analisamos esses dados: o brasileiro precisa de apoio para fazer o dinheiro render e sobreviver ao dia a dia de um país em crise. 

“Hoje, eu tenho uma equipe de sete pessoas e nunca deixo faltar conteúdo. Posto todo dia porque tenho comprometimento com meu público. Sei que ele precisa de mim”, destaca. “Quando tiro férias, passo 30 dias trabalhando o dobro para adiantar conteúdo. Meu compromisso é com quem me segue, não com o dinheiro ou com o descanso.” 

Com muita fé em Deus, Luciana termina seus vídeos de receita com um versículo que a tenha ajudado, em algum momento, a superar as dificuldades. “Sempre segui com fé, e é isso que busco passar para as mulheres que me assistem. Do limão, eu faço uma limonada e ainda uso a casca para fazer um docinho. Quem me assiste pode fazer o mesmo.”

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