Com projeto de restauração, cientista brasileira empodera mulheres indígenas no Pantanal

Letícia Couto Garcia coordena iniciativa que atende à demanda econômica e social das etnias Terena, Kadiwéu e Ribeirinhos da Baía Negra
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Letícia é uma das vencedoras do programa “Para Mulheres na Ciência” (Foto: Divulgação)

Apelidada de “Juma Marruá” pela família na infância, Letícia Couto Garcia, 39 anos,  é cientista, mãe e professora adjunta da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Apaixonada pela natureza desde criança, conseguiu ingressar na faculdade de biologia com o dinheiro deixado de herança pela avó. 

“Sempre fui um bicho do mato”, brinca. Após 20 anos de carreira, em outubro, seu projeto de restauração socioambiental do Pantanal foi um dos vencedores do programa “Para Mulheres na Ciência”, organizado pela L’Oréal Brasil em parceria com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

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Atual coordenadora do Laboratório Ecologia da Intervenção, a bióloga aposta suas fichas no desenvolvimento econômico das comunidades locais para reverter o quadro de degradação do bioma. Para isso, ela espera que as mulheres das etnias Terena, Kadiwéu e Ribeirinhos da APA Baía Negra formem, nos próximos anos, um núcleo independente de produção de mudas nativas do Pantanal. “Restauração é um assunto que traz muita esperança, mostra que os recursos naturais podem ser recuperados. Esse otimismo me encanta”, diz. 

Guardiões da floresta

Letícia conheceu o Pantanal em 2005, durante um curso de campo onde os cientistas deveriam permanecer isolados no Pantanal por um mês estudando a ecologia do bioma. “Lembro de ter achado tudo aquilo maravilhoso”, lembra. A cientista saiu da experiência apaixonada pela região e também pelo seu atual marido, um dos biólogos que participava do curso de campo. Pouco tempo depois, o casal resolveu se mudar para Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, onde atuam na carreira acadêmica na UFMS. 

Desse primeiro contato até os dias de hoje se passaram mais de 15 anos, intervalo no qual nasceram os dois filhos de Letícia, hoje com sete e quatro anos. “Não conseguia fazer essas pesquisas de campo quando estava grávida ou amamentando. São regiões distantes, com logística difícil para levar crianças pequenas”, lembra.

Em 2018, ela finalmente deu início ao projeto e teve a oportunidade de conversar com os povos que viviam no entorno da região e que dependiam da natureza como forma de subsistência. Entre eles, as etnias Terena, Kadiwéu e os Ribeirinhos da Baía Negra.

Com o diagnóstico das áreas a serem restauradas ficou claro: faltavam recursos básicos e, acima de tudo, maneiras de mudar aquela realidade. “As comunidades têm conhecimento, mas muitas vezes faltavam coisas básicas, como equipamentos e ferramentas”, conta. 

Nos projetos, os moradores são o principal braço da pesquisa. Assim, as mulheres das comunidades atuam coletando sementes nativas para produzir mudas para a restauração, dispensando a necessidade dos grandes viveiros que muitas vezes estão afastados da região que será recuperada. “O normal é comprar esse material de fora, mas não faz sentido mandar o dinheiro para outro lugar”, afirma. “A ideia é que essas mulheres e famílias se tornem independentes e possam ser reconhecidas como um núcleo produtor de mudas. O objetivo é dar visibilidade para que outros projetos passem a consumir esses produtos nativos e gerem lucro para a região.”  A equipe também vai plantar espécies frutíferas nativas que poderão ajudar na geração de renda dos próximos anos, além de dar um incentivo financeiro às mulheres para cozinhar as refeições da equipe dos alunos que trabalham no local.

Do ponto de vista da ciência, essa participação da população local também é essencial para que o projeto tenha continuidade, mesmo na ausência dos profissionais. “Uma hora o dinheiro para a pesquisa acaba, então precisamos construir uma conexão entre quem vive ali e o que está sendo feito.”

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Poucos meses depois das primeiras intervenções, alguns benefícios já estão sendo notados pelo grupo, como o aumento do volume da água da nascente do Córrego do Macaco. Pode ser já um reflexo do cercamento e do terracemaento em torno da área, a restauração possivelmente irá melhorar a qualidade de vida das comunidades ao facilitar o acesso à “itapipeo” (“mina de água”, em língua terena).  “Essas pessoas são as verdadeiras guardiãs das florestas. Elas entendem que aquilo precisa ser feito querem restaurar. Nós somos apenas os facilitadores para apoiar que eles realizem o que eles já sabem”, conclui.  

“Sem ciência ficamos para trás”

Em relação à própria carreira de cientista, Letícia confessa que a jornada é cansativa. “Como mulher, sinto que estou sempre precisando correr mais para ser reconhecida do que um homem. É um gasto de energia que os homens não vivenciam”, desabafa. Mesmo assim, a professora cita, orgulhosa, que grande parte das suas alunas são meninas, a quem ela aconselha que se mantenham sempre organizadas e focadas. “As mulheres têm algumas características que fazem com que se destaquem nesse mundo acadêmico, como o capricho e a multifuncionalidade. Eu sempre aconselho que minhas orientandas aprimorem isso, porque faz diferença no mercado”, diz. 

Do ponto de vista nacional, a bióloga não é tão otimista. Ela aponta os cortes de orçamento por parte do governo como grandes obstáculos para o desenvolvimento de pesquisas como a que ela conduz no Pantanal. “Temos alunos que passaram no doutorado em primeiro lugar e não conseguem uma bolsa para atuarem nos seus projetos”, aponta. Segundo a mineira, a falta de estrutura nas universidades, faz com que muitos potenciais cientistas decidam deixar o país e levem suas ideias para o exterior, onde são mais valorizados. “Sem ciência não temos vacina, não temos energia, não temos água. Sem ciência ficamos para trás”, diz. 

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