“Me disseram que só homens conseguiam trabalhar no setor elétrico”, diz Rakel Garcia, operadora da Spic

Funcionária da geradora de energia conta sua trajetória conturbada como mulher no segmento
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Rakel é uma das mulheres atuando no setor elétrico brasileiro (Foto: Dani Macedo/Divulgação)

A participação feminina ainda configura um desafio para o setor elétrico brasileiro. Segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), as mulheres correspondem a apenas 10% da força de trabalho no segmento sucroenergético, que engloba produtores de energia limpa em larga escala. Destas, a maioria se concentra em cargos administrativos. 

Sendo assim, aquelas que ingressam nos departamentos mais técnicos do setor ainda precisam contornar desafios e preconceitos relacionados ao gênero. Este é o caso de Rakel Paula Garcia, atual operadora plena da geradora de energia Spic.

Nascida no município de São Simão, em Goiás, a profissional teve contato com a usina hidrelétrica da cidade pela primeira vez durante uma excursão escolar. Fascinada com a proporção daqueles geradores, ela decidiu que iria estudar e se capacitar para trabalhar ao lado da imensidão das barragens. 

Mas, antes de realizar seus objetivos profissionais, Rakel precisou enfrentar os obstáculos que a própria vida lhe impunha. De origem simples, a goiana vivia em uma pequena casa de madeira com a mãe e os irmãos. Além de depender de doações para se alimentar e vestir, ela trabalhava como empregada doméstica para completar o sustento dos familiares. Dois anos depois, ainda na adolescência, engravidou e precisou se afastar da escola. 

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Assim, foi preciso mais do que força de vontade para mudar a realidade à sua volta. Hoje, Rakel atribui parte do sucesso à educação e à perseverança de insistir nos objetivos traçados, além de ressaltar a força feminina no ambiente de trabalho.  

Em sua jornada, a operadora destaca episódios de preconceito de gênero que a fizeram estagnar nos anos iniciais da carreira, assim como comentários relacionados ao domínio masculino no segmento. 

Veja, a seguir, a entrevista concedida à Elas que Lucrem:

Elas Que Lucrem: O que mais chamou sua atenção no setor de energia?

Rakel Paula Garcia: Eu tinha 14 anos quando conheci a Usina Hidrelétrica São Simão. Aquela estrutura era algo grandioso e pensar em como a energia era criada me fascinava. Na época, além de ficar muito impressionada, eu ainda tinha contato com outras pessoas da área de elétrica, incluindo meu irmão. Assim, acabei me sentindo motivada para buscar um curso técnico e procurar emprego no setor. 

O primeiro trabalho que consegui foi no armazém de açúcar de uma usina. No entanto, mesmo com os elogios, passaram-se dois anos e eu não consegui uma promoção para atuar na minha área. Na época, isso foi bem desestimulante para mim. Me contaram que o motivo era o simples fato de eu ser mulher – achavam que eu me assustaria em caso de emergências ou que não conseguiria destravar as válvulas do mecanismo. Enquanto isso, eu era responsável por movimentar sacos de 50 kg no armazém. 

Naquele período, fiquei sabendo que a Usina Hidrelétrica São Simão tinha um novo grupo controlador e que a acionista SPIC estava admitindo colaboradores. Fiz a entrevista e, mesmo sem experiência, acabei sendo chamada para ocupar a posição de operadora júnior. Fiquei maravilhada!

EQL: Você passou por uma série de dificuldades antes de ingressar na Spic Brasil: enfrentou a pobreza, uma gravidez na adolescência e situações de preconceito motivadas por gênero e raça. Como essas experiências impactam o seu desenvolvimento profissional?

RPG: Não sou o tipo de pessoa que se deixa abater por conversas e comentários relacionados a quem eu sou. Sendo assim, não me deixei desmotivar pelas coisas que passei – pelo contrário, tento usar isso como combustível para melhorar todos os dias. O que alguns homens machistas me falaram, em relação a não pertencer a determinado ambiente, procuro usar como incentivo. 

Além disso, por desde cedo ter o objetivo de melhorar a minha vida, principalmente no quesito financeiro, sempre me dediquei a cursos e formações gratuitas. Foi devido a uma delas, inclusive, que indiretamente consegui meu primeiro trabalho numa usina. Até hoje tenho essa percepção de que a educação sempre agrega. 

EQL: Qual o maior desafio que as mulheres enfrentam para ingressar neste mercado?

RPG: Você dificilmente encontrará uma mulher em um curso técnico de elétrica. Na minha sala, só tinha eu. Então, ainda hoje, a quantidade de profissionais do gênero feminino que entram neste setor é muito pequena. Por isso mesmo, precisamos de incentivo para que os jovens tenham interesse pela área. Quando foi a minha vez, lembro de ouvir que não conseguiria trabalho, já que era uma área fechada para homens. 

Já nas empresas, acredito que falta esforço para aumentar o número de mulheres nos setores mais práticos. Ou seja, colaboradoras que não estejam atuando apenas na limpeza ou nos laboratórios. Se existirem mais profissionais à frente da operação, cada vez mais meninas se sentirão motivadas a estudar e trabalhar na área.

EQL: Atualmente, a Spic é comandada pela CEO Adriana Waltrick. Como a liderança feminina impactou a sua carreira?

RPG: Impactou muito. Como mulher, sempre entro nas empresas com um pé atrás, principalmente pelas experiências negativas que contei. Então, no dia em que a diretoria foi visitar a usina e eu vi que a CEO era a Adriana, fiquei muito surpresa. Pensei: “Se o cargo mais alto já é ocupado por uma mulher, significa que todos os setores da companhia estão abertos para nós”.

Enquanto ela falava, naquele dia, cheguei a me emocionar. Não consegui parar de pensar em tudo o que aquela mulher havia passado e feito para chegar até ali. Ficou uma sensação de que somos bem-vindas, reconhecidas. 

EQL: Existe uma demanda por mais diversidade e representatividade de gênero no setor de energia?

RPG: As mulheres podem contribuir muito, em todas as áreas. Hoje em dia temos essa presença feminina em quase todas as profissões, o que é muito bom. Afinal, somos profissionais persistentes, perseverantes e resilientes, então, muitas vezes, a única coisa que falta é a oportunidade. As empresas que abrirem as portas não irão se arrepender. 

Hoje, somos duas mulheres no setor de operação. Desde que minha colega foi contratada, fiquei muito mais feliz. Acredito que a tendência é uma ir puxando a outra, então logo teremos uma presença feminina ainda maior. 

EQL: Como a dedicação à carreira mudou a realidade a sua volta?

RPG: Mudou tudo, principalmente porque abriu meu leque de oportunidades. Cheguei a trabalhar como doméstica, cuidadora de idosos e auxiliar de padeira. Então, assim que me consolidei na área de elétrica, a remuneração financeira foi uma das primeiras mudanças positivas. De uma criança que mal tinha onde morar, hoje já consigo ter imóveis  próprios para alugar. Nunca me considerei dependente de alguém, mas sem dúvida essa condição financeira me tornou uma mulher mais livre. Hoje eu posso realizar alguns sonhos, sem tantas privações. 

EQL: Que conselho você daria para as mulheres que pensam em ingressar no setor?

RPG: Para ingressar no mercado de trabalho, independentemente da área, a mulher deve pensar naquilo que ela quer para a própria vida. Onde ela quer chegar e do que ela precisa naquele momento. A partir disso, acho importante pensar no que é possível fazer hoje para garantir um amanhã melhor, como é o caso de alguns cursos e preparações. O que não nos leva a lugar algum é ficar paradas.

Não faço planos: hoje eu curso engenharia elétrica e, em breve, pretendo ingressar em um curso de idiomas. Se fosse para resumir toda a minha jornada, eu escolheria aquela frase: “Nunca desista dos seus sonhos, pois só você sabe o valor de cada um deles”. Para mim, o resultado é só a consequência dessa força de vontade.  

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