Maria de Sangue e Coração

Após um longo processo de adoção, Maria Helena cria um laço eterno com seu filho adotivo e deixa para trás uma união nada estável
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Maria de Sangue e Coração
Maria foi casada por 19 anos e está separada há dois. Seu ex-marido apresentava problemas com drogas e dificuldade em manter um emprego, o que foram os motivos da separação

Este perfil faz parte da reportagem especial “Maria, Maria: Entenda como vivem as mulheres brasileiras”. Para acessar a série completa, clique aqui.

Maria Helena, 57 anos, enfermeira

Nunca foi seu sonho ter filhos, nunca havia passado por sua cabeça ser mãe. Mas o destino é implacável. Sem se dar conta, Maria decidiu adotar pelo calor do momento. Mas, a partir do ponto em que o trouxe para a sua casa definitivamente, sem precisar entregá-lo ao abrigo, sentiu-se mãe. “Depois que percebi que, naquele momento, ele seria meu, me tornei mãe”, dizia ela, vestida em uma calça jeans, um tênis e uma blusa verde florida, simples e cheia de vida.

Maria Helena Matoso, em 2011, com os seus 48 anos, enfrentou o processo de adoção junto com o seu ex-marido para adotar o Arthur, um bebê de 6 meses de idade.

OLHA SÓ: Reportagem especial: Maria, Maria: Entenda como vivem as mulheres brasileiras

A adoção no Brasil é conhecida desde o século XVII, mas o processo conseguiu as primeiras regras legais apenas com o Código Civil de 1916. Ao decorrer da história do país, o sistema de adoção passou por diversas mudanças, das mais importantes: a criação da lei que estabelece o Código de Menores em 1797, e do Estatuto da Criança e do Adolescente em 1990. Por mais complicado e burocrático que seja, Maria Helena faria tudo novamente se fosse preciso.

Maria foi casada por 19 anos e está separada há dois. Seu ex-marido apresentava problemas com drogas e dificuldade em manter um emprego, o que foram os motivos da separação.

“Meu ex-marido não podia ter filhos e ele fez diversas cirurgias que não deram certo e, por isso, resolvemos adotar”, lembrava Maria.

Há mais de 13 anos, o casal iria fazer uma inseminação artificial na Santa Casa de São Paulo, uma instituição privada, considerada como o maior hospital filantrópico da América Latina, e o que a fez mudar de ideia foi os diferentes genes que iriam formar a criança, fazendo-a parecer totalmente diferente dela. O médico a informou que a probabilidade do procedimento não dar certo, na época, era de 99%, e ela perderia o valor investido. Então, foi orientada a ir para a casa e pensar a respeito. Após um longo processo de adoção e um casamento conturbado, Maria Helena cria um laço eterno com seu filho adotivo e deixa para trás uma união nada estável “E eu pensei muito, pensamos juntos, e decidimos reformar a nossa casa com o dinheiro”.

Nesta altura, já era certa a adoção. “Você precisa ir no Conselho Nacional de Justiça para preencher toda a papelada e entregar vários documentos; passamos juntos e sozinhos por psicólogo e assistente social. Eles examinam tudo bem a fundo”, me explicava o cansativo procedimento da adoção, e completou: “As pessoas falavam que era muito difícil adotar, e só adotava quem tinha dinheiro. Então você vai fazendo o processo e olha ele aqui conosco hoje”.

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Muita gente, no começo, a chamava de louca por adotar um filho, por adotar uma criança sem saber as características, tanto físicas quanto psicológicas, da família e – o mais importante para os donos da verdade – o filho não vinha do útero dela. Em sua defesa, Maria dizia que “filho não precisa vir da minha barriga para saber como ele é ou será. Nós ensinamos nossos filhos para ir pelo o melhor caminho, e, dependendo do caminho que ele escolher, sendo meu, de coração, é meu dever educar –porque se nós largarmos, o mundo pega. O que precisamos ter, hoje, é pulso firme, seja seu filho de sangue ou não, assim como sou com o Arthur. Sempre vou instruí-lo, porque se eu o abandonar agora, o mundo continua mais esperto que ele”.

A fila de espera foi de três intermináveis anos e, em num dia comum no hospital que trabalha como enfermeira, Maria recebeu uma ligação para conhecer o Arthur no abrigo. “Fui no juiz para pegar uma carta de autorização para vê-lo, e fomos [vê-lo]”, dizia Maria, emocionada.

E quando ela o viu pela primeira vez, foi amor à primeira vista. Arthur, com seis meses, estava no colo da funcionária do abrigo. “Eu olhei para ele e perguntei como alguém tinha coragem em deixá-lo”, relembrava o momento, pensativa, porque Arthur foi encontrado na rua pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), em uma noite de frio e chuva, e foi levado para o Hospital Penteado, tomou algumas bolsas de sangue e foi encaminhado para o abrigo onde Maria o encontrou.

Maria foi obrigada a frequentar a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). A Apae é uma organização cujo o objetivo principal é proporcionar atenção integral a pessoas com deficiência intelectual e múltipla. O intuito era acompanhar o desenvolvimento de seu filho, em consequência do estado em que o encontraram. Por sorte, Arthur não teve nenhuma sequela.

Arthur foi encaminhado para ingressar na Apae, pela doutora Sandra, uma neurologista que atendia ele, e que, em paralelo, trabalhava na entidade. “E tudo o que é encaminhado, se não fossemos [pelo direcionamento indicado], o juiz vinha em cima. Eles falavam que, quando você tinha um filho adotado, você precisava tomar cuidado, porque eles podem tomar o seu bebê e ainda responder processo, pura burocracia”, explicava Maria.

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Junto com seu filho, ela frequentou a Apae, regularmente, por três anos. Uma vez por mês, pelo menos, Maria comparecia na organização para medir a calota craniana do filho, em consequência do estado em que foi encontrado. Arthur começou a engatinhar com um ano e dois meses de idade e começou a andar com um ano e seis meses. Um bebê saudável começa a engatinhar entre sete e 11 meses, e andar entre 11 meses e um ano e meio de idade.

Maria, após visitá-lo pela primeira vez, começou a vê-lo todos os finais de semana. Depois, passou a trazê-lo para casa na parte da manhã e o devolvia à noite. Em seguida, começou a pegá-lo no sábado e o lavava embora no domingo.

“Depois que percebi que naquele momento ele seria meu, me tornei mãe”

Com o tempo, Maria passou a se sentir incomodada em entregá-lo de volta ao abrigo, por não saber tudo sobre como o bebê era tratado. “Onde ele estava, ficavam crianças de zero a cinco anos. Muitas crianças! Toda vez que o deixava lá, eu voltava para casa preocupada”.

Arthur sempre soube, desde criança, do processo de adoção e que é adotado. Nos tempos em que Maria era obrigada a frequentar a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, obteve muito apoio de psicólogos, orientadores e médicos; “me orientaram para que todas as vezes que eu estivesse no quarto com ele, na hora de dormir, eu o colocasse no meu colo e contasse para ele, bem no ouvido, que ele é adotado. Então criei uma história e, todos os dias, eu contava para ele”, dizia ela com ar protetor e carinhoso.

“Uma vez”, Maria contava, “na sala de aula, ele disse à professora que era adotado e ela achou que ele estava mentindo. Ele chegou da escola e me contou [o que havia acontecido]. Fui até a escola e conversei com a professora afirmando que o meu filho estava ciente de que era adotado e não estava mentindo”.

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Arthur nunca teve problemas com a adoção. Maria diz que “ele sempre foi muito carinhoso, perguntando se eu o amo ou gosto dele, e eu sempre respondi que o amo de qualquer jeito. Nossa relação sempre foi muito tranquila e é muito difícil ele me desobedecer”.

Atualmente, Maria vive com o seu filho, já com nove anos, em uma casa revestida de azulejos beges na Freguesia do Ó, perto do Amigos do Picuí, um restaurante agradável, com uma comida deliciosa e sempre muito movimentado.

Maria fez algumas viagens com Arthur e seu sonho é viajar pelo mundo com ele.

Maria como tantas Marias, mas singularmente, Maria mãe do Arthur.

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